Argentina já é líder em taxa de risco
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de outubro de 2001
Agência Folha<br> De Buenos Aires 
A Argentina possui vários recordes: seus habitantes são os maiores consumidores per capita de carne do mundo, ostentam o maior número de prêmios Nobel na América Latina, em Buenos Aires está a mais larga avenida do mundo e também a mais longa. Mas desde ontem, passou a ter a angustiante liderança de ser a nação com a maior taxa de risco país do planeta.
A Argentina chegou à pole position do risco com 1.874 pontos, enquanto que a Nigéria caía para o segundo lugar, com 1.862 pontos. Depois, ficaram o Equador (1.550 pontos) e a Ucrânia (1.385).
Para o analista da Bolsa, Freddy Vieytes, a taxa é merecida, já que o que está sendo medido é o que os mercados pensam sobre o pagamento dos bônus da dívida externa argentina, a possibilidade de default (moratória). ''Temos diversos vencimentos da dívida a partir de maio do ano que vem até o ano 2005. Só depois é que teremos algum alívio'', disse à Agência Estado.
''Esta alta pode ser uma forma de apertar o país para que cumpra o que prometeu'', diz, referindo-se à meta de déficit fiscal 0%. Segundo ele, as eleições parlamentares do próximo domingo não estariam tendo tanta influência sobre os mercados. ''Nunca como antes houve uma eleição levada com tanta indiferença'', sustenta.
Segundo Vieytes, ''o negócio é que os mercados querem que 'façamos coisas', como reduzir as dívidas das províncias e as taxas de juros. A impressão que a Argentina está dando é de um monte de planos econômicos que começam, mas nunca terminam. É como um jogo de futebol que fica sem gols. Aqui nunca saímos das preliminares...''.
O economista Carlos Pérez, da Fundação Capital, disse à AE que existem motivos para que a Argentina esteja liderando o ranking. ''Este ranking mede um único aspecto da economia, que é a capacidade de pagamento do endividamento público nacional e como os investidores o vêem. Hoje, é o país emergente menos confiável neste aspecto''.
Segundo Pérez, o Equador, que está em terceiro lugar no ranking, ''já passou pelo trauma do default e está conseguindo um crescimento positivo nos últimos anos. A Argentina não entrou em default, mas está tentando salvar o paciente dessa morte. Mas a verdade, é que entre os 1.874 da Argentina e os 1.550 do Equador, a situação é tal, que não existe muita diferença...''.
Ontem, a Bolsa portenha fechou em alta de 4,94%. Um dos motivos para a alta, além dos baixos preços das ações, foi o anúncio do presidente do BID, Enrique Iglesias, de que o organismo está estudando uma solução para a dívida da Argentina. ''Estamos trabalhando intensamente com o FMI e o Banco Mundial para ver como implementamos um programa de reestruturação'', disse Iglesias.


