O resultado do leilão de Letras do Tesouro realizado na terça-feira – quando o governo teve de pagar juros de 14,01% ao ano para vender seus títulos – aumentou a preocupação sobre a capacidade de a Argentina superar a atual crise. De doente terminal com chances de sobrevivência, o país agora parece agonizar à espera de um milagre.
Na avaliação da maioria dos analistas, a Argentina precisará de mais dinheiro para honrar seus compromissos, e o default ou moratória (a suspensão dos pagamentos aos credores) surge como a hipótese mais provável. A grande expectativa do mercado, agora, não é ‘‘se’’ vai acontecer, mas ‘‘quando’’.
Junto à crise econômica, continua a crise política, e aumentam as pressões para o presidente Fernando de la Rúa conceder mais poderes ao já poderoso ministro da Economia, Domingo Cavallo.
De olho nas eleições parlamentares de outubro, o partido de De la Rúa, a União Cívica Radical (UCR) reage à idéia, ao mesmo tempo em que dificulta a proposta de ajuste fiscal de Cavallo, com previsão de cortes nos gastos públicos.
Na opinião do cientista político Rosendo Fraga, amigo íntimo e conselheiro de Cavallo, o presidente De la Rúa deverá tomar uma decisão de dar maior apoio ao ministro até domingo, para que os mercados comecem a semana com maior credibilidade em relação à Argentina.
Caso contrário, a situação vai piorar e chegar onde todos temem, que é o default. Em entrevista por telefone à Agência Estado, Fraga ressalta que o presidente não está disposto a dar a Cavallo todo o poder de que ele necessita por temer enfrentar o líder da UCR, o ex-presidente Raúl Alfonsín, que é contra os cortes defendidos por Cavallo.
Para o economista argentino José Siabe Ferrate, a grande questão não é o anúncio de mais medidas – esperadas para ontem à noite – visando a recuperação da economia, e sim um acordo concreto e oficial do governo De la Rúa com os governadores das províncias.
De um lado, disse Ferrate, está o ministro Domingo Cavallo. De outro, está Alfonsín, que não quer ceder a Cavallo a direção da Seguridade Social. Entre os dois, afirmou o economista, está o presidente De la Rúa, ‘‘que não decide em que lado fica’’. ‘‘O dramático disso tudo é que a inércia conduz ao default.’’
O ex-secretário de Fazenda, Juan Alemann, tem uma opinião semelhante. Segundo ele, a Argentina está à beira do default. O contraditório, explica, é que ‘‘a dívida do país não é tão grande, representa 50% de seu PIB’’, enquanto na Itália representa 100% de seu produto bruto, na Grécia é mais de 100%, e o mesmo ocorre em toda a Europa. ‘‘O que acontece é que estes países têm a dívida bem ordenada e pagam juros baixos.’’
Para o diretor sênior para títulos soberanos da agência de classificação de risco Fitch, Roger Scher, o resultado do leilão de títulos fez com que aumentassem bastante as dúvidas em relação à capacidade do país em rolar as suas dívidas.
‘‘Houve uma mudança de sentimento. E agora o mercado está com essa grande dúvida: a rolagem será possível?’’, disse Scher, por telefone, de Nova York.
O economista-chefe do BicBanco, Luiz Rabi, é mais pessimista. Segundo ele, o fracasso no leilão de títulos pode ser um indicativo de que não há mais tempo para a Argentina. De acordo com Rabi, a mensagem do mercado foi bastante clara. ‘‘Se a Argentina não dispunha de crédito externo, agora nem os agentes locais estão dispostos a financiar o Tesouro. Nessa situação, uma moratória da dívida pública, ou parte dela, é algo quase certo’’, diz Rabi.

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