Wladimir Goitia
Agência Estado
De São Paulo
O setor agrícola argentino, considerado um dos mais competitivos do mundo, passa por uma das piores crises de sua história. Pesquisa recente do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), combinada com dados do setor privado, mostra o encolhimento dos negócios no campo, tanto em quantidade de produtores como em investimentos.
Em longa reportagem publicada na semana passada, o jornal ‘‘La Nación’’ informa que o setor agropecuário argentino começa a conhecer somente agora os números reais da crise. ‘‘A combinação de dados oficiais e de cifras fornecidas por empresas e entidades privadas mostra o forte ajuste que afeta hoje o campo, onde a atividade da maioria dos produtos caiu’’, diz o ‘‘La Nación’’. Os dados indicam que o impacto na economia agrícola argentina se observa com maior intensidade na desaceleração da demanda por máquinas, equipamentos e insumos agrícolas.
Segundo o jornal, as vendas de tratores caíram de 4.701, em 1998, para 2.430, no ano passado (cerca de 49%) e as de colheitadeiras de 1.067 unidades para 552 (cerca de 48%) no mesmo período. Já a venda de sementes caiu 16%, em comparação com 1998. A essas números somam-se ainda a redução de 54,1% da área plantada de algodão e de 27% na de arroz na safra 98/99, em relação à safra anterior.
‘‘Essa situação, que entre outras consequências gerou uma queda na produção de grãos de 65 milhões de toneladas na safra 97/98 para 58,5 milhões de toneladas na de 98/99, afetou a reconversão tecnológica, provocou importantes problemas na cadeia de comercialização e prejudicou os compromissos bancários dos produtores’’, afirma o ‘‘La Nación’’. A safra 99/2000 de grãos está sendo estimada em 60,8 milhões de toneladas. A de soja deve cair de 19 milhões de toneladas para 18,7 milhões de toneladas, embora a área de plantio tenha crescido 2,2%. Já a safra de milho deve ser de 14,7 milhões de toneladas. Embora esses problemas continuem pressionando a rentabilidade agropecuária da Argentina, alguns produtores acreditam que este ano a situação deve melhorar.
Enquanto os representantes do setor começam a pensar em uma nova onda de protestos por causa dessa situação, quase a metade dos produtores agrícolas em condições de ter acesso ao programa de refinanciamento de passivos lançado pelo Banco de la Nación (uma espécie de Banco do Brasil argentino) já começou a realizar gestões para aderir a esse benefício, que poderá tirar 23 mil agricultores da situação de inadimplência, que se aproxima de US$ 1,2 bilhão. Dessa cifra, US$ 400 milhões são considerados pelo banco incobráveis, mas os outros US$ 800 milhões se enquadram no programa de refinanciamento.
O refinanciamento é apenas um dos problemas que enfrentam os produtores agrícolas argentinos. O peso dos impostos é outro dos pontos que os dirigentes do setor pretendem atacar nos próximos dias, com protestos que devem chamar a atenção das autoridades do governo e da opinião pública. Uma nova marcha de tratores e a instalação de barracas em frente ao Congresso estão sendo programadas e devem ser decididas hoje na Província de Junín, onde será realizada uma assembléia de agricultores que está sendo organizada pela Associação das Confederações Rurais de Buenos Aires e La Pampa (Carbap), que poderá ter adesão de outras entidades rurais de Entre Ríos, Córdoba e Santa Fé.
Há duas semanas o governo lançou um pacote de medidas para tentar tirar o setor agrícola argentino dessa crise. Os produtores que têm dívidas com o Banco de la Nación, por exemplo, terão 20 anos de prazo para recompor a sua situação financeira. De acordo com dados do banco, cerca de 77 mil agricultores devem quase US$ 3 bilhões ao banco. Para reaver parte dessa dívida, o banco decidiu reduzir em 2 pontos porcentuais a taxa de juros que se paga hoje – de 13,5% para 11,5% ao ano.
Mas essa medida tem validade de apenas um ano. Com isso, o Banco de la Nación deixará de receber cerca de US$ 36 milhões. Foi definida ainda uma linha de crédito de US$ 150 milhões para financiar a retenção de estoques em mãos dos produtores para poder vender depois com preços melhores. A taxa para esses créditos será de 10,5% ao ano.