Uma dolarização é menos provável do que uma flutuação cambial (desvalorização) como válvula de escape à aguda crise argentina, assinalaram ontem analistas econômicos e empresários.
Miguel Angel Broda, economista de consultas do Fundo Monetário Internacional (FMI), disse que ''uma dolarização como solução de emergência tem poucas chances de ter êxito, porque não elimina as especulações sobre o tipo de câmbio''.
A Argentina ficou este mês à beira de um colapso financeiro, ao perder o sustento do FMI, que impôs duras restrições ao uso de dinheiro no país, o que debilitou no mercado a paridade com o dólar que marginalmente está cotado entre 1,25 e 1,40 peso.
''Em determinado momento pareceu que esta medida (dolarizar) reduziria o risco cambial e nos aproximaria do grau de inversão. Mas hoje isso surge como uma estratégia tardia, incapaz por si mesma de solucionar os graves problemas'', disse Broda.
Roque Fernández, um liberal ortodoxo ex-ministro da Economia, propôs segunda-feira ''uma flutuação de 10% a 20% no câmbio, porque a dolarização como saída só serviria em 1998 ou 1999, quando as circunstâncias eram outras''.
''Hoje temos a economia em default (moratória), uma crise do sistema financeiro em que está congelado o saque de dinheiro e um controle de câmbios'', disse Fernández, ligado ao ex-presidente peronista Carlos Menem (1989-1999).
O economista industrial Aldo Ferrer sustentou, em contrapartida, que a tendência poderia ser uma ''desdolarização, para reconstruir o peso como eixo do sistema monetário, pois nenhuma economia do mundo funciona se não tiver sua moeda nacional ou uma moeda regional como o euro''.
No entanto, o deputado do opositor Partido Justicialista (PJ, peronista) Daniel Scioli disse que ''o país está num caminho sem volta rumo à dolarização, mas a medida deve ter um respaldo político muito forte''.
O peso conversível em dólares, ou livre eleição de ambas as moedas, é respaldado com as reservas do Banco Central (autoridade monetária), mas os últimos empréstimos transitórios dados pela entidade e a desconfiança do público deixam dúvidas entre os analistas.

Ontem o governo argentino confirmou que fará um novo ajuste para recuperar o apoio do FMI, mas não vai suprimir incentivos ao consumo no uso dos cartões de crédito, informou ontem o ministério da Economia, em um comunicado à imprensa. ''O ministério da Economia desmente que será eliminada a devolução de cinco pontos de Imposto Valor Agregado (IVA, consumo, de 21%) aos consumidores que pagarem com cartão de crédito'', indicou a declaração divulgada à imprensa. Mas o documento admitiu que o ministro da Economia, Domingo Cavallo, em uma entrevista à imprensa domingo, quando voltou de Washington, mencionou que ''serão revisadas as isenções fiscais outorgadas para melhorar a competitividade''.
Alto risco O índice líder MerVal da Bolsa argentina despencou 7,58% nesta segunda-feira, a 235,12 unidades, enquanto o risco-país subiu para 4.206 pontos básicos (42,06% de sobretaxa de juros) contra os 4.171 pontos de sexta-feira. Num outro dia de tensão para os mercados por causa da crise financeira do país, a Bolsa registrou um volume de negócios de 14,9 milhões de pesos (mesmo valor em dólares) contra os 36,5 milhões de sexta-feira. Ao todo, foram 21 baixas, apenas quatro altas e cinco papéis sem alterações. O risco-país cresceu 35 pontos em relação à sexta-feira.

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