O FMI tornou público o mesmo pessimismo sobre a Argentina que seus técnicos haviam registrado de forma privada na última semana. Tomas Dawson, porta-voz do Fundo, disse em uma entrevista coletiva que o FMI não vai adiantar para novembro o desembolso da parcela de US$ 1,2 bilhão do programa de ajuste do país previsto para dezembro.
''Isso não está sendo considerado e não vai acontecer agora'', disse Dawson, referindo-se ao pedido do ministro da Economia argentino, Domingo Cavallo, para que o Fundo antecipe pagamentos de créditos. Inicialmente, Cavallo disse que a antecipação seria essencial para anunciar o programa de reestruturação da dívida, que o governo argentino apresentaria ontem às 21 horas e acabou mais uma vez adiado. Segundo a assessoria do presidente Fernando De la Rúa, ''algumas medidas do plano'' seriam anunciadas, então, às 22 horas. Até o fechamento desta edição, o plano não havia sido divulgado.

Enquanto debatia com os governadores um acordo para o repasse de verbas federais, o governo da Argentina tornou público mais um sinal indicativo de que será muito difícil manter uma das últimas apostas de Domingo Cavallo, o plano de déficit zero (gastar só o que se arrecada). A arrecadação tributária de outubro caiu 11,3% sobre o mesmo período de 2000. Com menos impostos recolhidos, crescem as necessidades de novos cortes de gastos.
A Argentina parece disposta a não jogar mais com a paciência dos mercados, com o prometido anúncio do pacote. Em declarações à tarde, Fernando De la Rúa deu a entender que o programa de reestruturação não incluiria só a dívida interna, mas também a externa. Os investidores temem que o governo decrete a moratória das dívidas. A reestruturação da dívida interna, que inclui os débitos do governo e das Províncias, com bancos e fundos de pensão (estimada em US$ 20 bilhões), seria feita com a emissão de papéis com taxas de juros de 7%, cinco pontos abaixo da média dos atuais títulos. Na prática, mesmo com todo o discurso do governo de que se trata de uma operação voluntária, os credores a definem em uma só palavra: calote.
O mercado respondeu negativamente a mais um dia de negócios encerrado sem que ninguém soubesse qual seria a proposta de operação de reestruturação da dívida. O risco-país que reflete as apostas dos investidores sobre a possibilidade de o país honrar suas dívidas voltou a alcançar níveis recordes e fechou em 2.318 pontos básicos. O temor de que se iniciasse uma fuga dos depósitos bancários fez as taxas interbancárias disparar para 120% anuais.

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