Argamassa é a campeã em desperdício
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sexta-feira, 20 de novembro de 1998
Agência Estado 
A argamassa, que representa 3% do custo total de uma obra, é o material campeão em perdas na construção civil. Este resultado faz parte da versão final da pesquisa que mediu, pela primeira vez, o consumo e as perdas para 19 materiais e vários serviços da construção.
Dezesseis universidades analisaram 69 canteiros de obras, em 12 Estados brasileiros, derrubando o mito de que o desperdício na construção de uma obra chegaria a 30% de seu peso. Desta vez, os pesquisadores não têm um número global de desperdício, mas informações sobre cada um dos materiais e serviços.
As perdas de alguns produtos, como a argamassa, são acentuados. Mas, em outros casos, como o do concreto usinado, é razoável. Na construção civil, a perda não é inerente ao processo, disse o professor Ubiraci Lemes de Souza, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Universidade de São Paulo (USP), um dos coordenadores da pesquisa.
O estudo checou dois tipos de perdas: a parcela que vira entulho (perda direta) e a fração que foi incorporada à obra (perda indireta), como, por exemplo, a argamassa usada a mais que engordou uma parede.
De acordo com a pesquisa, as empresas pesquisadas têm um perfil semelhante: 71% são incorporadoras e construtoras voltadas para o segmento residencial. A maior parte da amostra é formada por empresas de porte médio e por algumas pequenas (em Estados menores).
A argamassa - cimento, areia e cal - é a campeã em perdas nas obras, independente do serviço executado. No contrapiso, a perda é de 42%. Quando o uso é o revestimento da parede interna, salta para 102%, caindo para 53% quando é utilizada no revestimento da parede externa da construção.
Há duas explicações, segundo os pesquisadores: ou uma sobreespessura ou uma dosagem errada dos materiais na composição da argamassa.
Em algumas empresas, a pesquisa registrou o uso de cinco litros por metros quadrados de argamassa para o assentamento de alvenaria. Em outras obras, o uso saltou para 35 litros por metro quadrado.
Segundo Souza, se essa segunda empresa conseguisse reduzir o uso para 15 litros, estaria economizando R$ 3 por metro quadrado - quantia suficiente para pagar a metade do custo da mão-de-obra, que é de R$ 6 por metro quadrado.
As estruturas de concreto armado, que utilizam concreto usinado e aço, em contrapartida, são o material com as menores perdas. A pesquisa registrou uma perda de 9% no concreto usinado e de 11% no aço. Houve também uma pequena variação no desempenho das empresas - principalmente em relação ao uso do aço.
A estrutura de concreto é o primeiro serviço de uma obra, explicou Souza, o que faria com que ele não herdasse falhas de outros serviços. Além disso, há muito cuidado com a estrutura já que ela implica na segurança da obra.
Em geral, as perdas apontadas pela pesquisa são maiores do que as especificadas nos manuais de orçamento da construção civil. É o caso, por exemplo, do concreto usinado, de acordo com a pesquisa. Mesmo sendo o campeão em poucas perdas, com um desempenho mediano de 9%, o recomendado pelos manuais é de 2%.
Durante as visitas às obras, os pesquisadores colecionaram exemplos que estão concorrendo ao caso extremo de perda. Em uma empresa, os tijolos eram estocados em uma pilha de três metros de altura, no formato de uma pirâmide. Além da perda com o transporte, há uma perda importante com o corte e o manuseio.
Exageros à parte, a pesquisa recomenda às empresas uma preocupação maior com o aço. Os projetos deveriam recomendar os cortes pretendidos, evitando assim cortes não planejados que levam a perdas.
Outro material com altas perdas são as placas cerâmicas, com perda mediana de 14%. A perda hoje é maior do que a de anos atrás pelo aumento das peças, explicou Souza. Quanto maior a peça, maior a perda quando feito o corte.


