São Paulo - A alta dos preços no mercado internacional e a desvalorização do real devem estimular os produtores brasileiros a aumentar o plantio de soja na safra 2002/03. O País poderá bater recorde na produção do grão.
Para o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, a produção poderá atingir 48 milhões de toneladas, contra 41,1 milhões de toneladas produzidas em 2001/02. Os produtores já começaram a vender a safra de soja do ano que vem, antes mesmo de plantá-la. Os preços atraentes oferecidos pelas tradings que operam o mercado mundial servem de estímulo.
Motivos para os preços altos não faltam: além de se beneficiar da desvalorização cambial, o sojicultor tira proveito de um cenário de oferta e demanda bastante atrativo no mercado internacional. Relatório divulgado ontem pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estimou que a produção mundial de soja na safra 2002/03 será menor do que a demanda, reduzindo os estoques finais do grão. A demanda pelo grão deve crescer 3,5%, ficando em 190,78 milhões de toneladas, enquanto a produção deve aumentar em 3,1%, atingindo 189,41 milhões de toneladas. Como resultado, os estoques mundiais devem encerrar a próxima safra em 29,37 milhões de toneladas, com queda de 3,76% sobre 2001/02.
No Brasil, Pessôa afirma que há sinais claros de que os produtores deverão aumentar a área destinada à soja no plantio deste ano. O analista acredita que o plantio deve ocupar 17,5 milhões de hectares em todo Brasil, 7% acima do registrado em 2001/02. ''A área deve crescer principalmente nos Estados do Cerrado e na nova fronteira agrícola'', diz. ''No Sul e Sudeste, o apoio que o governo está oferecendo para o plantio do milho deve impedir que a migração para a soja seja tão significativa.''
Mesmo com base em um aumento de área de 7%, Pessôa está apostando em uma safra de 48,5 milhões de toneladas, volume 15,7% superior ao colhido este ano. ''O produtor está investindo mais em tecnologia, e a projeção também se baseia na suposição de que o clima não vai ser tão adverso para algumas áreas como foi na última safra'', explica.
Um dos sinais mais significativos de que a área plantada vai crescer é o aumento das compras de fertilizantes nos Estados produtores de soja, no período de abril a junho. A troca de fertilizantes pelo compromisso de entrega de soja na safra é uma forma comum de financiamento à produção nesses Estados. ''Neste período de abril a junho, o adubo que está sendo entregue vai ser usado para plantar a safra de verão na grande maioria dos Estados'', explica Pessôa.
O analista constata, contudo, que as trocas de adubos por soja começaram mais cedo este ano, em março. ''O compra de fertilizante era vantajosa porque as matérias-primas caíram de preço no mercado mundial e a indústria estava com estoques altos'', diz. ''Por isso, mesmo antes da alta no mercado internacional e da desvalorização do câmbio, já era vantajoso financiar a safra de soja desta forma.''

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