Aquecimento global ameaça agricultura brasileira
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quinta-feira, 17 de março de 2005
Agência Estado 
São Paulo - O aquecimento global vai ter um impacto drástico na agricultura brasileira. Num estudo recém-concluído, pesquisadores da Embrapa Informática, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Ministério da Agricultura, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostram que o café, o arroz, o feijão, o milho e a soja terão suas áreas aptas ao cultivo reduzidas praticamente pela metade, assim que a temperatura média da Terra estiver 5,8 graus centígrados acima da atual.
Esse aumento da temperatura deve ocorrer num prazo de 50 a 100 anos, conforme previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês). ''É preciso ressaltar, no entanto, que já há cientistas que dizem que a temperatura do planeta vai aumentar na verdade 11 graus nos próximos 100 anos'', diz o coordenador do trabalho sobre as consequências desse aquecimento global na agricultura brasileira, Eduardo Assad, da Embrapa Informática. ''O que é certo é que nos próximos 15 anos a Terra vai ficar 1 grau mais quente.''
Assad e Hilton Silveira Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), da Unicamp, pegaram os dados do zoneamento agrícola brasileiro, feito pelo Ministério da Agricultura, e em cima deles simularam em computador o impacto do aumento da temperatura.
Esse zoneamento estabelece a melhor época, área e tipo de solo para cada cultura agrícola em cada município brasileiro. Os pesquisadores pegaram essas informações e calcularam a área potencial que o Brasil tem para o cultivo de quatro das cinco culturas estudadas. ''Pelos nossos cálculos, o País tem uma área potencial de 3 milhões de quilômetros quadrados para cultivo de soja, 4,8 milhões para o arroz de sequeiro (não irrigado), 3,5 milhões para o feijão e 5,2 milhões para o milho'', explica Assad.
Para cada uma dessas culturas, eles simularam o impacto que teria o aumento da temperatura média global de 1 grau, 3 graus e 5,8 graus. Assad explica que o aumento da temperatura altera o regime de chuvas, de evaporação da água e da transpiração das plantas.
Redistribuição - O ponto comum para as culturas estudadas é que a área potencial para o cultivo de todas elas diminuiu. ''Com o aumento de 1 grau, as áreas para o plantio de soja, arroz, feijão e milho caem respectivamente para 2,7, 4,1, 3,1 e 5,1 milhões de quilômetros quadrados'', diz Assad. ''Com um acréscimo de 3 graus essas áreas diminuem para 2,1, 3,7, 2,2 e 4,7 milhões km2. No pior cenário, com aquecimento de 5,8 graus, as áreas aptas para o cultivo de soja, arroz, feijão e milho passam a ser respectivamente de 1,2, 3, 1,5 e 4,3 milhões de km2.''
Além da diminuição da área cultivável, outro efeito do aquecimento global será a redistribuição das culturas no território. ''A soja praticamente desaparecerá do Sul e se concentrará no Centro-Oeste'', diz Assad. ''O café deixará o Sudeste para o Sul.''
De acordo com ele, o objetivo do trabalho é alertar as autoridades e a comunidade científica para a necessidade de adoção de medidas para evitar o que pode vir a ser um desastre para a agricultura e a economia do País. ''Temos ainda 50 anos para isso'', observa. ''Uma forma de evitar a tragédia é começar a pesquisar para aproveitar a biodiversidade do País.''
Assad lembra que o Brasil tem enorme reserva de plantas nativas no cerrado resistentes ao calor e à seca. ''Podemos pegar os genes que dão essas características às plantas e transferi-los para as espécies que cultivamos. Nenhum outro país tem esse potencial.''


