Ativo realO boi que foi um ativo financeiro, na época da ciranda, continua como opção de investimento. Mas exige cuidado As aplicações em contratos de compra de bois - que atraem um número crescente de interessados e têm exibido rentabilidade inferior apenas à da Bolsa - começam a preocupar o mercado financeiro e o próprio governo. O número de investidores nesses contratos triplicou em dois anos. A Fazendas Reunidas Boi Gordo, pioneira no setor, com 70% do mercado, passou de 3.872 clientes, em 95, para 12.300 investidores. O desempenho está levando o governo a estudar formas de regulamentar a ação das empresas que exploram o filão. A novela ‘‘O Rei do Gado’’, da TV Globo, teve participação no boom dos fazendeiros do asfalto. Na época, a Boi Gordo investiu em marketing para popularizar a aplicação.
Outras cinco empresas disputam o mercado. Quatro delas surgiram neste ano. Todas seduzem o investidor com promessas de ganho acima da média de rentabilidade do setor de pecuária. Analistas consideram que essas empresas, na prática, captam poupança popular, mas não são submetidas a nenhum tipo de fiscalização.
Dizem que não existem garantias para o capital investido, como uma fiança bancária, por exemplo, que poderia ser acionada em caso de dificuldades do pecuarista. Também preocupa a falta maior de transparência e informações detalhadas sobre volume de recursos aplicados, resgates e faturamento. Além disso, a rentabilidade assegurada pelas empresas - a garantia de aumento de peso oferecida pela Boi Gordo é a mais conservadora do mercado - seria muito superior ao que é considerado viável economicamente. Segundo apurou a reportagem, o percentual de engorda prometido pode até ser realista, mas a rentabilidade prometida não inclui os custos da fazenda.
Inviável A mais baixa rentabilidade oferecida em contratos de parceria pecuária é elevada o suficiente para tornar o negócio inviável. A avaliação é do consultor de empresas agropecuárias Sylvio Lazzarini Neto, especializado em pecuária de corte.
A rentabilidade em questão é da Boi Gordo, a maior entre as que oferecem esse tipo de aplicação. Seu contrato estipula ganho de peso de 27,80% em 18 meses.
Para chegar a essa conclusão, Lazzarini fez uma ‘‘simulação de sistema de produção recria-engorda’’ em uma fazenda de 5.000 ha de pastagens com 5.000 cabeças para engordar.
A simulação mostrou que, se o criador pagasse aquela rentabilidade, ele
perderia dinheiro.
De acordo com o consultor, o máximo que o pecuarista poderia garantir ao investidor seria aumento de peso de 9,1% em 18 meses. Isso possibilitaria lucro de 0,91 arroba por boi para cada parceiro, sem levar em conta a
valorização da arroba no dia da venda do gado.
Promessa de ganho A rentabildade da Boi Gordo resulta da promessa de ganho de peso mínimo de 42% e do desconto da taxa de administração, de 10%. Os contratos de parceria pecuária não prevêem rendimento fixo no resgate. As empresas garantem apenas um percentual mínimo de engorda do animal. O índice de garantia de engorda varia de empresa para empresa. Depende, entre outros fatores, do prazo de resgate e da idade e peso do animal definido no contrato.
No caso da Boi Gordo, por exemplo, a rentabilidade de 27,80% é sobre o peso, não sobre o dinheiro aplicado. O aplicador não sabe quanto receberá pelas arrobas no momento da venda.
‘‘Quem fez o contrato há 18 meses está ganhando agora cerca de 82%’’, diz Paulo Roberto de Andrade, presidente da Boi Gordo. Otimista, Andrade prevê que a arroba esteja a R$ 33 daqui a um ano. Todos os contratos estabelecem que as despesas correm por conta do dono da fazenda, que também se compromete a repor o boi em caso de perda. A Arroba’s promete o mesmo ganho de peso da Boi Gordo. Durval Barbosa, gerente comercial, diz que o investidor deve estar atento ao melhor momento para fazer a aplicação.
O preço da arroba é mais baixo na safra e sobe na entressafra. ‘‘Se comprar na alta e vender na baixa perde lucratividade.’’ Segundo Barbosa, o melhor período para fechar contratos de engorda do boi magro é de janeiro a março. Devem ser evitados os meses de agosto, setembro e outubro.
Outra empresa, a Gado Forte, garante ganho de peso ainda maior: 54% sobre as arrobas líquidas (menos a taxa de administração de 10%).
A Embrapek promete um ganho de peso de 41% sobre as arrobas contratadas em apenas 16 meses e não cobra taxa. Silvia Helena de Canaes, da Embrapek, diz que isso é possível por causa da produtividade e da estrutura enxuta. O boi atinge o ponto de abate com 18 arrobas, ou seja, um ganho de peso de 80% sobre as dez arrobas iniciais. É da diferença entre esse total e o peso mínimo garantido ao aplicador que sai o lucro da empresa, após descontadas as despesas.
A Gallus e a Ouro Branco trabalham com contratos de engorda de prazo mais curto: 12 meses. A Gallus garante ganho mínimo de peso de 33% no período e tem taxa de administração de 5%. A Ouro Branco garante 36% e não cobra
taxa. ‘‘Temos mais bois do que a nossa responsabilidade prevista nos contratos.’’ A afirmação é de Durval Barbosa, gerente comercial da Arrobas’s.
A Arroba’s mantém em suas sete fazendas, conta Barbosa, 7.000 cabeças a
mais do total previsto nos contratos. Todas as empresas garantem ter reservas acima do volume total de cabeças estabelecidas nos contratos. Paulo Roberto de Andrade, da Boi Gordo, diz que a empresa conta com patrimônio de US$ 60 milhões, entre propriedades e animais. O patrimônio da Gallus, uma holding de dez empresas, chega a US$ 100 milhões, conta Fernando Caron, diretor-presidente.

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