Aplicações em bois preocupam mercado
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quarta-feira, 17 de setembro de 1997
Arthur Pereira Filho e Maurício Espósito Agência Folha São Paulo 
Ativo realO boi que foi um ativo financeiro, na época da ciranda, continua como opção de investimento. Mas exige cuidado As aplicações em contratos de compra de bois - que atraem um número crescente de interessados e têm exibido rentabilidade inferior apenas à da Bolsa - começam a preocupar o mercado financeiro e o próprio governo. O número de investidores nesses contratos triplicou em dois anos. A Fazendas Reunidas Boi Gordo, pioneira no setor, com 70% do mercado, passou de 3.872 clientes, em 95, para 12.300 investidores. O desempenho está levando o governo a estudar formas de regulamentar a ação das empresas que exploram o filão. A novela O Rei do Gado, da TV Globo, teve participação no boom dos fazendeiros do asfalto. Na época, a Boi Gordo investiu em marketing para popularizar a aplicação.
Outras cinco empresas disputam o mercado. Quatro delas surgiram neste ano. Todas seduzem o investidor com promessas de ganho acima da média de rentabilidade do setor de pecuária. Analistas consideram que essas empresas, na prática, captam poupança popular, mas não são submetidas a nenhum tipo de fiscalização.
Dizem que não existem garantias para o capital investido, como uma fiança bancária, por exemplo, que poderia ser acionada em caso de dificuldades do pecuarista. Também preocupa a falta maior de transparência e informações detalhadas sobre volume de recursos aplicados, resgates e faturamento. Além disso, a rentabilidade assegurada pelas empresas - a garantia de aumento de peso oferecida pela Boi Gordo é a mais conservadora do mercado - seria muito superior ao que é considerado viável economicamente. Segundo apurou a reportagem, o percentual de engorda prometido pode até ser realista, mas a rentabilidade prometida não inclui os custos da fazenda.
Inviável A mais baixa rentabilidade oferecida em contratos de parceria pecuária é elevada o suficiente para tornar o negócio inviável. A avaliação é do consultor de empresas agropecuárias Sylvio Lazzarini Neto, especializado em pecuária de corte.
A rentabilidade em questão é da Boi Gordo, a maior entre as que oferecem esse tipo de aplicação. Seu contrato estipula ganho de peso de 27,80% em 18 meses.
Para chegar a essa conclusão, Lazzarini fez uma simulação de sistema de produção recria-engorda em uma fazenda de 5.000 ha de pastagens com 5.000 cabeças para engordar.
A simulação mostrou que, se o criador pagasse aquela rentabilidade, ele
perderia dinheiro.
De acordo com o consultor, o máximo que o pecuarista poderia garantir ao investidor seria aumento de peso de 9,1% em 18 meses. Isso possibilitaria lucro de 0,91 arroba por boi para cada parceiro, sem levar em conta a
valorização da arroba no dia da venda do gado.
Promessa de ganho A rentabildade da Boi Gordo resulta da promessa de ganho de peso mínimo de 42% e do desconto da taxa de administração, de 10%. Os contratos de parceria pecuária não prevêem rendimento fixo no resgate. As empresas garantem apenas um percentual mínimo de engorda do animal. O índice de garantia de engorda varia de empresa para empresa. Depende, entre outros fatores, do prazo de resgate e da idade e peso do animal definido no contrato.
No caso da Boi Gordo, por exemplo, a rentabilidade de 27,80% é sobre o peso, não sobre o dinheiro aplicado. O aplicador não sabe quanto receberá pelas arrobas no momento da venda.
Quem fez o contrato há 18 meses está ganhando agora cerca de 82%, diz Paulo Roberto de Andrade, presidente da Boi Gordo. Otimista, Andrade prevê que a arroba esteja a R$ 33 daqui a um ano. Todos os contratos estabelecem que as despesas correm por conta do dono da fazenda, que também se compromete a repor o boi em caso de perda. A Arrobas promete o mesmo ganho de peso da Boi Gordo. Durval Barbosa, gerente comercial, diz que o investidor deve estar atento ao melhor momento para fazer a aplicação.
O preço da arroba é mais baixo na safra e sobe na entressafra. Se comprar na alta e vender na baixa perde lucratividade. Segundo Barbosa, o melhor período para fechar contratos de engorda do boi magro é de janeiro a março. Devem ser evitados os meses de agosto, setembro e outubro.
Outra empresa, a Gado Forte, garante ganho de peso ainda maior: 54% sobre as arrobas líquidas (menos a taxa de administração de 10%).
A Embrapek promete um ganho de peso de 41% sobre as arrobas contratadas em apenas 16 meses e não cobra taxa. Silvia Helena de Canaes, da Embrapek, diz que isso é possível por causa da produtividade e da estrutura enxuta. O boi atinge o ponto de abate com 18 arrobas, ou seja, um ganho de peso de 80% sobre as dez arrobas iniciais. É da diferença entre esse total e o peso mínimo garantido ao aplicador que sai o lucro da empresa, após descontadas as despesas.
A Gallus e a Ouro Branco trabalham com contratos de engorda de prazo mais curto: 12 meses. A Gallus garante ganho mínimo de peso de 33% no período e tem taxa de administração de 5%. A Ouro Branco garante 36% e não cobra
taxa. Temos mais bois do que a nossa responsabilidade prevista nos contratos. A afirmação é de Durval Barbosa, gerente comercial da Arrobass.
A Arrobas mantém em suas sete fazendas, conta Barbosa, 7.000 cabeças a
mais do total previsto nos contratos. Todas as empresas garantem ter reservas acima do volume total de cabeças estabelecidas nos contratos. Paulo Roberto de Andrade, da Boi Gordo, diz que a empresa conta com patrimônio de US$ 60 milhões, entre propriedades e animais. O patrimônio da Gallus, uma holding de dez empresas, chega a US$ 100 milhões, conta Fernando Caron, diretor-presidente.


