São Paulo - O risco país está no nível mais baixo da história, o Brasil pagou tudo o que devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a inflação fechou o ano em 5,69%. Mas crescimento que é bom, nada. Enquanto a China cresceu 9,5%, a Índia, 7%, e a Argentina, mais de 8% em 2005, o Brasil deve fechar o ano com pífios 2% a 2,3%.
O mercado financeiro tece loas à política econômica do Brasil, mas o fato é que o País teve um ano melancólico: nenhum dos principais países desenvolvidos ou emergentes teve crescimento tão fraco como o do PIB brasileiro. Integrantes do governo Lula garantem que o desempenho medíocre é página virada e o Brasil se encaminha para um crescimento acima de 3,5% em 2006. Mesmo assim, o PIB decepcionante pode ser uma pedra no sapato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha presidencial deste ano.
Há um descompasso entre a percepção do mercado financeiro e dos porta-vozes da economia real. Para muitos analistas, a política econômica foi vitoriosa. ''Com a redução da inflação, o Brasil fez um investimento para poder crescer mais no futuro'', diz o economista-chefe para a América Latina do Banco ABN-Amro, Mário Mesquita. Já para empresários a equipe econômica errou a mão no aperto monetário. Como disse Newton de Mello, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq): ''Estão comemorando tanto a política econômica do governo, devem achar que as pessoas se alimentam de risco país'', diz Mello.
Mesquita salienta que a prioridade do governo foi desinflacionar a economia, e ele foi bem-sucedido nesta missão. Em maio de 2003, a inflação acumulada em 12 meses era de 17%. No ano passado, ficou abaixo de 6%. ''O governo desinflacionou a economia em mais de 10 pontos porcentuais. É natural que, durante este processo, o País cresça menos.''
Segundo Mesquita, não existe consenso de que o BC errou a mão na política de juros. ''Existe consenso, sim, de que o Brasil cresce menos do que deveria'', afirma o economista. ''Mas isso acontece porque falta consolidar a estabilidade e aprofundar as reformas, como a trabalhista, para aumentar a produtividade, a da previdência, para resolver o problema fiscal, e a tributária, para reduzir a carga de impostos.''
Para ele, o principal argumento a favor da necessidade de uma política monetária restritiva é a própria inflação de 2005, que ficou acima da meta, de 4,5%, e do objetivo que o BC havia fixado posteriormente, de 5,1%. Mas Mesquita admite que o resultado pode ter sido doloroso. ''A sociedade pagou um custo em crescimento acima do esperado.''
O pesquisador do Inter-American Dialogue e ex-responsável pelo Departamento de Hemisfério Ocidental no FMI, Claudio Loser, reage com perplexidade ao frustrante desempenho do Brasil. ''Eu não consigo entender como o crescimento do Brasil pode ter caído tanto.''
''Fiquei muito surpreso; no início do ano, todo mundo apostava em um crescimento entre 3% e 4%. Aí a política monetária muito apertada e as taxas de câmbio muito valorizadas tiveram impacto na economia brasileira'', diz Loser.

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