Aperto fiscal congela contratações
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de junho de 2003
Fabiana Futema<br> Agência Folha 
São Paulo - O aperto da política monetária reduziu a confiança do empresariado na expansão do nível da atividade econômica e congelou novas contratações no setor industrial.
Segundo o boletim Relações do Trabalho, divulgado ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), esse é um dos motivos que explica a falta de crescimento do emprego industrial nos primeiros três meses de 2003. De janeiro a março, o nível de emprego industrial permaneceu praticamente estagnado, registrando um ligeiro crescimento de 1,16% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o boletim.
Apesar do ligeiro crescimento, a CNI destaca que a base de comparação é comprometida, pois no primeiro trimestre de 2002 o emprego industrial ainda estava reprimido pelos efeitos da crise energética de 2001. O indicador da CNI ficou acima dos números do IBGE, que registraram um avanço de 1% no emprego industrial no primeiro trimestre deste ano.
Para a CNI, o desaparecimento dos fatores temporários de expansão do ano passado - como o pagamento da correção do FGTS e as eleições - e o aperto da política monetária a partir do último trimestre de 2002 minaram a confiança do empresário na sustentação do ritmo de atividade e suspenderam novas contratações.
De acordo com o boletim, o nível de emprego industrial - descontados os fatores sazonais do período - encontra-se praticamente estabilizado desde outubro do ano passado, com pequenas oscilações. Já para o IBGE, o indicador de pessoal assalariado para a indústria de transformação mostra ligeira tendência de declínio no mesmo período.
O boletim da CNI mostra que oito setores registraram crescimento do emprego industrial no período de janeiro a março. Entre os que mais se destacaram estão os de alimentos e bebidas e e de máquinas e equipamentos. Em nove setores, o nível de emprego no primeiro bimestre ficou menor do que foi observado no mesmo período do ano passado, dentre eles vestuário e produtos químicos, que são empregadores importantes.
Ao contrário dos temores do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, os salários pagos pela indústria não sofreram a reposição das perdas inflacionárias. A ata do Copom divulgada na semana passada responsabilizava a ''persistência inflacionária provocada pelos reajustes salariais'' pela manutenção da taxa de juros em 26,5% ao ano.
O boletim Relações do Trabalho mostra que o total de salários líquidos reais pagos pela indústria no primeiro bimestre de 2003 recuou 6,18% em relação ao mesmo período do ano passado. Se levar em conta o salário real por trabalhador, a queda foi um pouco maior: 7,3%.
Segundo a CNI, a queda no salário industrial pode ser explicada pela corrosão provocada pela inflação, já que no período houve crescimento do pessoal empregado e das horas trabalhadas. Nos últimos 12 meses, até fevereiro, a inflação acumulou alta de 17,7% de acordo com o INPC.
O levantamento do IBGE registra queda da folha de pagamento média real no primeiro bimestre em todos os 18 setores da indústria. Na indústria de transformação como um todo, a queda foi de 6,1%, mas em alguns setores o recuo percentual da folha média real em comparação com o primeiro bimestre do ano passado foi de dois dígitos, como nos casos de vestuário, papel e gráfico e produtos de metal, dentre outros.
Segundo a CNI, o baixo dinamismo do mercado de trabalho associado à persistência de taxas elevadas de inflação limitou a recuperação dos salários reais na indústria a curto prazo.


