A comerciária Vera Machado costuma guardar dinheiro para emergências
A comerciária Vera Machado costuma guardar dinheiro para emergências | Foto: Mie Francine Chiba

A comerciária Vera Machado bateu o carro recentemente. A situação lhe traria uma grande dor de cabeça, não fosse um detalhe importante da sua vida financeira: ela guarda dinheiro para emergências. Não é o que seis em casa dez brasileiros fazem, segundo a pesquisa "Preparo do brasileiro para o futuro e imprevistos", feita pelo Banco Central, pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e pelo SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). Apenas 42,1% dos entrevistados no levantamento se declararam capazes de enfrentar um imprevisto sem recorrer a um empréstimo ou pedir a ajuda de terceiros.

Os números revelam ainda que a dificuldade é maior entre as classes mais baixas. Nos extratos C, D e E, 41,1% se declararam capazes de arcar com uma despesa inesperada, enquanto outros 41,0% disseram que isso não seria possível. Nas classes A e B, os porcentuais são de 45,9% e 34,0%, respectivamente.

As pessoas mais velhas também têm maiores dificuldades. Na faixa acima dos 55 anos, apenas 28,1% podem fazer frente a despesas inesperadas sem recorrer a terceiros ou aos bancos, enquanto 48,3% disseram que isso não é possível. Na faixa entre 18 e 34 anos, os porcentuais são de 48,9% e 32,9%, nesta ordem.

Vera Machado diz que sempre se preocupou em ter uma reserva para emergências, e diz considerar ainda mais importante hoje, com as mudanças que o novo governo pensa em trazer com a Reforma da Previdência. “A gente fica no escuro. Quem é jovem tem como buscar novas coisas.”

A pesquisa mostrou ainda que seis em cada dez brasileiros não fazem nenhum preparo para a aposentadoria. Entre as classes C, D e E, a ausência de preparo atinge 62,2% das pessoas. No extrato A e B, o porcentual é de 45,1%. Entre os motivos para a falta de planejamento estão o fato de não sobrar dinheiro no orçamento (35,9%) e o desemprego (18,1%).

Entre os que estão se preparando, 42,1% esperam se sustentar na aposentadoria por meio de investimentos. Outros 36,8% disseram que pretendem continuar a trabalhar, enquanto 34,9% esperam por uma pensão do INSS. Para 15,9%, a renda no fim da vida virá de parentes ou cônjuges.

"Tudo indica que a Previdência passará por mudanças profundas nos próximos anos, já que a condição atual se mostra economicamente insustentável. O governo e a sociedade terão de lidar com a questão, mas, seja qual for o resultado das discussões no Congresso, será cada vez mais difícil contar apenas com a aposentadoria concedida pela União", avaliou a economista chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. "É fundamental começar a pensar numa complementação quando a pessoa ainda é jovem e não apenas quando se aproxima a hora de parar de trabalhar."

Tranquilidade

“A reserva de emergência traz tranquilidade para situações de emergência, pois sabemos que situações como essas não estão sob nosso controle”, diz o planejador financeiro João Botosso, sócio da Youp Financial Group e associado à Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. Segundo ele, o ideal, nesses casos, é não recorrer a empréstimos de terceiros, bancos ou financeiras. “O ideal é que a pessoa esteja preparada para essas situações. Se nós, brasileiros, tivéssemos essa cultura, passaríamos por uma situação ruim com mais tranquilidade.”

Segundo Botosso, é indicado que as pessoas guardem o equivalente a, no mínimo, seis vezes o valor de seu gasto fixo mensal em um tipo de investimento com alta liquidez que permite o resgate imediato do dinheiro. O CDB com liquidez, fundos DI ou Tesouro Selic são mais indicados do que a poupança, por exemplo, devido à maior rentabilidade, calculada de acordo com a taxa de juros básica, de 6,5% ao ano. A falta de dinheiro no final do mês não é “desculpa” para não fazer uma reserva – no caso do Tesouro Selic, por exemplo, já é possível fazer o investimento com, no mínimo, R$ 30 ao mês, mas é preciso checar o valor dos títulos no site do Tesouro Direto. Além disso, é possível programar a reserva com o débito automático.

A pesquisa do BC, da CNDL e do SPC Brasil mostrou ainda que, em caso de dificuldade financeira, o brasileiro conseguiria manter seu padrão de vida por até 5 meses, em média. Entre os entrevistados, 26,5% disseram ser possível manter o padrão por entre 1 e 3 meses, enquanto apenas 9,5% disseram ser possível fazer isso por mais de 12 meses.

No caso de um imprevisto que alterasse a vida financeira - como a diminuição da renda, por exemplo - 46,6% disseram que cortariam despesas e gastos desnecessários. Outros 33,2% fariam um diagnóstico financeiro para, depois, decidir o que fazer.

"É preciso entender que, em certas situações emergenciais, nem mesmo cortar gastos poderá ser suficiente para resolver o problema", avaliou, na pesquisa, o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli. "Constituir uma reserva financeira é fundamental em qualquer etapa da vida, pois imprevistos podem acontecer a qualquer momento. A dica é ter disciplina e fazer um esforço para começar, mesmo que seja com um valor pequeno; basta garantir que essa quantia não atrapalhe a gestão do orçamento mensal e o pagamento das despesas básicas." (Com Agência Estado)

Imagem ilustrativa da imagem Apenas 4 entre 10 são capazes de arcar com despesa inesperada, diz pesquisa
| Foto: Folha Arte
mockup