Apenas 12% dos investidores anjo no Brasil são mulheres

Índice fica abaixo do percentual observado nos EUA e na Europa, onde a proporção é de 22%

Mie Francine Chiba - Grupo Folha
Mie Francine Chiba - Grupo Folha


Dos 7.750 investidores anjo do Brasil, apenas 12% são mulheres. Os números são da última pesquisa da Anjos do Brasil, organização sem fins lucrativos de fomento ao investimento anjo e apoio ao empreendedorismo de inovação no País. Em 2017, a proporção de mulheres inseridas nesse tipo de investimento era de 10%. O índice fica abaixo do percentual observado nos EUA e na Europa, locais onde o número de investidoras anjo é de 22%.


Apenas 12% dos investidores anjo no Brasil são mulheres
Folha Arte
 



“A participação feminina (no investimento anjo) é muito pequena”, disse Maria Rita Spina, diretora-executiva da Anjos do Brasil. Segundo ela, isso foi o que motivou a organização a realizar uma pesquisa sobre o perfil das investidoras anjo (leia mais nesta edição). A intenção é que os dados sirvam como referência para as ações realizadas pela entidade e pela MIA (Mulheres Investidoras Anjo), movimento criado por Spina dentro da Anjos do Brasil, a fim de aumentar a participação das mulheres nesse ambiente.






A participação das mulheres no investimento anjo é pequena em todo o mundo. Mesmo na Europa e nos EUA o índice é de cerca de 20%. Na visão da diretora-executiva da Anjos do Brasil, isso pode ser explicado pelo fato de as mulheres ainda estarem muito distantes do mundo do dinheiro, investindo pouco ou tendo pouca decisão de investimento. Informação e conhecimento sobre um tipo de investimento diferente como esse é necessário para encorajar que mais mulheres invistam em startups.




A pesquisa do perfil das investidoras anjo foi realizada em parceria com a Ella Impact, comunidade global de mulheres focadas em desenvolver conexões e conhecimento ao redor do tema de investimentos e negócios de impacto. “Infelizmente, em nossa cultura, as mulheres não são consideradas investidoras - diferentemente dos homens que desde cedo já se consideram investidores, na maioria dos casos - e por isso elas não conseguem se enxergar como tais, por mais que possuam recursos financeiros disponíveis”, comenta Julia Profeta Johansson, fundadora da Ella Impact. “Além disso, a mentalidade da mulher em geral também é menos direcionada a risco, mais direcionada à construção de patrimônio de longo prazo”, ela acrescenta.




Para Maria Rita Spina, diferentes visões e experiências de vida contribuem para encontrar melhores soluções para os problemas do mundo. Por esse motivo, a diversidade é um fator importante para a inovação.




“O modelo mental feminino é complementar ao masculino, trazendo diversas vantagens ao processo de decisão de investimento”, afirma Johansson. “Mulheres trazem outras habilidades e além disso entendem de mercados femininos, frequentemente menosprezados por homens simplesmente pelo fato de desconhecerem o consumidor potencial e a dinâmica de certas necessidades/demandas.”




Segundo a pesquisa da Anjos do Brasil, 70% das investidoras anjo já investiram em um negócio co-fundado por pelo menos uma mulher. O dado revela uma tendência delas investirem mais em negócios com uma mulher entre os fundadores. Na opinião de Spina, o que se percebe é que existe uma sensibilidade maior das mulheres em relação às dificuldades das empreendedoras.




ALÉM DO DINHEIRO


O investimento anjo, acrescenta a diretora-executiva, vai além do dinheiro. O investidor anjo também contribui com as startups com o seu conhecimento, através de mentorias. Para o investidor, os benefícios também vão além do retorno financeiro. “Ele passa a entender mais de inovação, a estar mais conectado com o mercado de startups”, diz Spina. Além disso, o investidor tem a sensação de estar ajudando novos negócios e de devolver à sociedade o que aprendeu.




Segundo a última pesquisa da Anjos do Brasil, embora o investimento anjo em 2018 tenha tido uma queda de 0,4% em relação ao ano anterior, caindo de R$ 984 milhões para R$ 979 milhões, o número de investidores anjo cresceu 1,8%, saltando de 7.615 para 7.750. A expectativa é que esse número aumente 5% em 2019. O volume de investimento no Brasil ainda é apenas 1,2% do que é investido em startups nos Estados Unidos - aproximadamente US$ 23,1 bilhões anuais.



EMPREENDEDORAS COM MAIS DE 50



A pesquisa da Anjos do Brasil revela ainda o perfil das investidoras anjo brasileiras. A maioria (48%) tem mais de 50 anos, é empreendedora (39%), atua na área de administração (42%) e tem entre R$ 200 mil e R$ 300 mil para investir em negócios ao ano.


Vera Lúcia Antunes, 54, é a única mulher em um grupo de investidores anjo de Londrina, a Smart Value
Vera Lúcia Antunes, 54, é a única mulher em um grupo de investidores anjo de Londrina, a Smart Value | Ricardo Chicarelli - Grupo Folha
 



A empresária Vera Lúcia Antunes, 54, sócia da Centrallimp, em Londrina, conta que já perdeu muito dinheiro investindo em negócios. Antes de fundar a Centrallimp com a sócia Solange Silvestre, 22 anos atrás, ela já foi dona de franquias. Se tivesse recebido a ajuda de um investidor anjo na época, talvez a história tivesse sido diferente, diz.




Hoje, além de estar à frente da empresa, Antunes é a única mulher em um grupo de investidores anjo de Londrina, a Smart Value. Às startups nas quais o grupo investe, ela leva a sua experiência como empreendedora.




O objetivo principal, claro, é o retorno financeiro. Mas a empreendedora afirma que, ao se tornar investidora anjo, gostaria de se ver inserida no cenário da inovação em uma região que começa a se destacar por ser um polo de inovação. Ela diz que foge à regra quando se trata de investimento, porque, ao contrário das mulheres em geral, gosta do risco. “Não tenho medo de correr riscos. O risco faz parte do negócio.” O fato de participar de um grupo, que toma as decisões em conjunto, no entanto, oferece mais segurança ao investimento.




Assim como o grupo, Antunes é inclinada a investir em negócios com soluções que podem melhorar a vida das pessoas e reduzir custos. Esses, na sua opinião, tendem a crescer mais rápido.




Para a investidora, o recurso financeiro é fundamental para startups saírem do papel. No entanto, ela afirma que alguns negócios procuram o grupo de investimento atrás do “smart money” - da mentoria e do networking que os investidores proporcionam aos negócios.



'NÃO PRECISA DE MILHÕES'



 A executiva Linda Machado, 50, vice-presidente da Curitiba Angels, grupo de investimento anjo da capital, tem uma receita para as mulheres que querem se tornar investidoras anjo, mas têm medo de se arriscar e de errar: comece com um investimento menor. Para ela, não é preciso investir altos valores para ser uma investidora anjo. “Não precisa de milhões para investir em uma startup.”




A perspicácia e a sensibilidade são próprias das mulheres e podem em muito contribuir para os negócios, comenta a investidora, que atua há muitos anos na área de cadeia de suprimentos, também bastante dominada por homens. “Sou a favor de haver equilíbrio em tudo na vida, principalmente em questões envolvendo as mulheres. A gente tem uma sensibilidade bastante apurada, e consegue enxergar rápido onde o empreendedor está penando.” E se considerar que cerca de 78% dos jovens hoje querem ter negócio próprio, segundo pesquisa da Telefônica Vivo, tem que ter muita gente para ajudá-los, lembra ela.




Machado migrou para o investimento anjo porque buscava se manter atualizada sobre o universo tecnológico. Além disso, na sua visão, é pelas mãos dos jovens empreendedores que as inovações irão surgir. O objetivo da investidora é contribuir com esse público, que tem como modo de vida o desapego e trabalha colaborativamente.




Para a executiva, uma startup promissora tem mais de um dono e possui uma área comercial forte. “Tem coisas que tomo muita precaução, como não investir em startups de um dono só, pois o empresário hoje tem que ser malabarista. E uma coisa que é importante em uma empresa é o comercial, que é por onde entra o dinheiro.” Dentre as startups que já saíram da Curitiba Angels estão a Contabilizei e a James Delivery, adquirida recentemente pelo Grupo Pão de Açúcar.  






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