A professora aposentada Juçara Neiva de Lima enfrentou uma maratona de duas semanas tentando achar um eletricista para mudar a voltagem de duas tomadas em seu apartamento. Entre dez profissionais consultados, conseguiu um para executar o serviço. ''Fiquei surpresa. Todos falaram que estavam trabalhando e não tinham tempo para me atender. As cidades cresceram e hoje esses profissionais rastreiam a mão de obra, não aceitando mais pequenos serviços porque não compensa para eles'', contextualiza.
A situação vivida pela professora reflete uma realidade de mercado. Eletricistas, encanadores e demais prestadores de pequenos serviços sumiram do mercado doméstico. O boom da construção civil - com bons salários e trabalho de sobra - absorveu a mão de obra existente e deixou uma lacuna na área dos pequenos serviços. Isso abre em cidades do interior um nicho de mercado já difundido nos grandes centros: as empresas prestadoras de serviços de manutenção predial.
Essas empresas reúnem equipes de profissionais em várias áreas e, na prática, acabam com o amadorismo na relação entre o contratante do serviço e o profissional. ''Em 24 horas mandamos na sua casa uma pessoa para resolver o seu problema. Sempre um representante da empresa vai junto para assegurar que tudo será feito conforme o cliente pediu'', afirma Marcus Vinícius Gaino, que há dois meses abriu em Londrina uma empresa (Belgamo) que executa serviços de manutenção em condomínios.
Ele (amdministrador) e o sócio Marco Flores (arquiteto) trabalhavam em uma construtora e tiveram a ideia de montar o negócio porque constataram a demanda na área. A empresa agrega parceiros nas áreas elétrica, hidráulica, de pintura, pequenas reformas, entre outras. Os preços cobrados são R$ 40 para a primeira hora e R$ 20 para as demais.
Para montar a empresa, os sócios foram para São Paulo conhecer o mercado. Gaino diz que São Paulo, Rio de Janeiro e o Distrito Federal são as regiões com mais ''know-how'' em relação à manutenção predial. ''Depois do Palace II (edifício construído pelo ex-deputado Sérgio Naya, que desabou em 1998, no Rio de Janeiro), as leis ficaram muito mais severas'', destaca.
Segundo Gaino, Londrina tem hoje entre 1,3 mil e 1,4 mil edifícios. Ele diz que há demanda por manutenção em todas as regiões. ''Na Gleba Palhano, por ser uma região nova, as pessoas estão mais preocupadas com prevenção, e no centro, por ser antigo, o trabalho é mais corretivo'', observa.
Demanda aquecida
O engenheiro elétrico Albert Henrique Bernardi também está criando uma estrutura para atender serviços de manutenção elétrica. Ele já tem uma empresa (Eletrolink) que instala cabeamento de rede de computadores e telefonia e, recentemente, passou atender outros serviços, como troca de chuveiro e instalação de luminária, tomadas, extensão elétrica. ''Como havia demanda, eu sempre acabava fazendo manutenção elétrica para vizinhos e amigos. Os pedidos aumentaram e eu agreguei esse serviço'', diz Bernardi, que planeja montar uma equipe de profissionais conforme a demanda for crescendo. Ele cobra R$ 30 pela primeira hora de atendimento.
Para Nestor Correia, vice-presidente do Sindicato da Habitação e Condomínios (Secovi), regional de Londrina, com o ritmo acelerado da construção civil, o mercado ficou carente de profissionais para manutenção doméstica. ''Os profissionais que antes atendiam rapidamente, hoje demoram mais de oito dias para pegarem um serviço. Isso envolve eletricistas, encanadores, pessoal que faz pintura, pequenas reformas, reparação de calha. Não tem desemprego nestas áreas. E o cidadão isolado, quando precisa desse tipo de serviço, acaba ficando na mão'', repara.
André Almeida, gerente de uma administradora de condomínios (Almeida Condomínios), diz que por enquanto não sente falta de profissionais para manutenção. Ele tem parceria com ''três ou quatro'' autônomos, que já o atendem há algum tempo. Quando precisar de mais, no entanto, teme encontrar dificuldade. ''Muitos dos profissionais bons, com experiência, são aqueles que cresceram fazendo aquilo. Hoje o mercado é diferente'', observa.

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