Apagão é 'história de horror', diz Vidal
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domingo, 19 de agosto de 2001
Lúcio Flávio Moura<BR>De Londrina 
O engenheiro e físico José Walter Bautista Vidal, 67 anos, um dos maiores estudiosos da questão energética no País, avaliou como uma ''história de horror'' as questões que envolvem a crise energética sofrida pela País e a ''crônica de uma morte anunciada'', o programa de racionamento imposto à sociedade pelo governo federal.
''Os riscos deste pesadelo que vivemos hoje já eram sabidos desde a década de 70. A população, de vítima transformada em culpada, está sendo enganada'', garante o especialista, que já foi duas vezes Secretário Nacional de Tecnologia Industrial nos governos Ernesto Geisel e José Sarney e fundador de cerca de 30 instituições de tecnologia do País.
Para Bautista Vidal, idealizador do Proálcool, responsável pela instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari (BA), um dos mais importantes da América Latina e conferencista voluntário de dezenas de debates no País, a crise energética e o fantasma do apagão surgiu após um lento processo de interferência internacional, especialmente do Fundo Monetário Internacional (FMI), que inibiu os investimentos públicos no setor de forma proposital, visando passá-los para a mão da iniciativa privada. ''Estamos pagamos um preço descomunal por este colapso e o pior é que ele não será resolvido a curto prazo'', aposta o cientista baiano filho de imigrantes espanhóis.
''A desculpa da falta de chuvas é descabida. Se estamos com reservatórios das hidrelétricas com apenas um quinto da capacidade é porque nos últimos anos houve um uso irresponsável da água para cobrir esta falta de investimento'', acusa. Vidal, que esteve esta semana em um seminário na Universidade Estadual de Londrina que discutiu matriz energética e privatização da água, acredita que o governo continua ''falhando perversamente'' na administração da crise.
''Estamos apostando em termelétricas movidas a gás natural da Bolívia, que é uma alternativa cara, poluente e burra, já que dependemos de reservas que não são nossas. Continuam as restrições do capital internacional contra o investimentos em hidrelétricas. O que querem é desmoralizar o sistema elétrico brasileiro e impedir que as usinas continuem sendo do governo, que não está privatizando, está internacionalizando o setor'', aponta o professor, acrescentando que a privatização vem rendendo lucros exorbitantes aos investidores. ''Somente com o anúncio de que a RAS (empresa norte-americana entrou no mercado brasileiro, suas ações multiplicaram de valor sete vezes. Isto comprova como nosso mercado é importante.''
O cientista não vê autoridade na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão federal responsável por regular o setor elétrico, e afirma haver um risco concreto de, sob administração privada, a matriz energética seja alterada a longo prazo. ''O gás e o petróleo são mais caros que eletricidade e por isso mais lucrativos. poderá haver desativação de hidrelétricas em um futuro próximo'', prevê. ''Estamos destruindo uma infra-estrutura construída durante 50 anos e que era excepcional, de alta tecnologia nacional. Estamos montando o desastre'', lamenta.
Vidal não vê em nenhum partido político a preocupação com a questão e admitiu que tem poucas esperanças a curto prazo de que alguém implemente seus projetos para tirar o setor da crise. ''Eles vão contra os interesses internacionais''. Sua aposta emergencial são as termelétricas movidas a carvão vegetal, a exploração do bagaço de cana-de-açucar e a construção de pequenas e médias hidrelétricas. ''O Brasil é a grande potência energética do mundo. Tanto ainda por ter um potencial hidrelétrico subaproveitado, quanto por ser um País tropical, que pode gerar energia a partir da biomassa. Nossos governantes deveriam estar cientes disso''.
''Para o Paraná, por exemplo, que está perdendo a Copel estupidamente, teve seu território verde praticamente devastado, o reflorestamento para fins energéticos seria bom do ponto de vista ecológico e econômico'', lembra o cientista, garantindo que, ao contrário das termelétricas à gás, o Brasil possui tecnologia própria para este fim.
Em relação às pequenas e médias hidrelétricas, as vantagens da construção deste porte seriam a redução do impacto ambiental, a rapidez da obra e o custo de transmissão, segundo o cientista.


