São Paulo - Dez anos atrás, fazendeiros americanos semeavam a primeira safra comercial de soja transgênica do planeta. Tinha início uma das eras mais revolucionárias e mais polêmicas da biotecnologia agrícola. De lá para cá, 475 milhões de hectares já foram cultivados com lavouras transgênicas, incluindo soja, milho, algodão e canola. Só no ano passado, foram 90 milhões de hectares em 21 países, semeados por 8,5 milhões de agricultores.
Tão grande quanto a adoção da tecnologia pelos produtores, entretanto, é a sua rejeição por parte de organizações ambientalistas e de consumidores, principalmente na Europa. Mesmo com a multiplicação das áreas de plantio, as dúvidas da maioria das pessoas com relação aos transgênicos são as mesmas de dez anos atrás. É seguro para comer? É seguro para o meio ambiente? A batatinha ou o chocolate que eu compro no supermercado são transgênicos?
As respostas também não mudaram muito. Cientistas e produtores que já confiavam na tecnologia estão cada vez mais certos de sua segurança e de seus benefícios. Ambientalistas e defensores da agricultura orgânica e familiar, por outro lado, continuam a classificar os transgênicos como uma ameaça.
''Muitas pessoas focam nas críticas, mas o fato é que os transgênicos são a tecnologia com adoção mais rápida da história'', disse à reportagem Robb Fraley, vice-presidente e diretor de tecnologia da Monsanto, a multinacional americana que inventou os transgênicos e que domina o mercado até hoje. ''Isso não seria possível se não houvesse um benefício real no campo. Após 30 anos de pesquisa e 10 anos de consumo, eu diria que as dúvidas foram respondidas.''
O produto mais recente a ganhar o campo foi o arroz transgênico resistente a lagartas, desenvolvido e plantado no Irã desde 2004. No Brasil, duas variedades transgênicas de soja e algodão foram aprovadas em 2005.
Dezenas de projetos ainda aguardam avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para testes, incluindo feijão, cana-de-açúcar, mamão e eucalipto. Neste mês, foram liberados experimentos de campo com batata resistente a vírus e algodão e milho resistentes a insetos. ''Se o que os ambientalistas estão dizendo é verdade, isso significa que milhões de agricultores em mais de 20 países estão errados. Será que isso é razoável? Acho que não'', afirma Clive James, presidente do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA).
Para representantes da Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos, a adoção dos transgênicos tem dois motivos principais: propaganda e hegemonia de mercado. ''A capacidade da propaganda para manter esses mitos é muito mais eficiente do que os resultados dos transgênicos no campo'', diz o agrônomo Gabriel Fernandes, assessor técnico da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA). ''Perto de tudo que foi anunciado pelas empresas, os resultados estão muito longe do esperado.''
Segundo o coordenador de campanha do Greenpeace, Ventura Barbeiro, as empresas retiram as sementes convencionais do mercado, deixando o produtor sem opção. ''A pressão para aceitação dos transgênicos é muito forte'', diz.

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