Especialistas afirmam que uma das primeiras coisas que o estudante deve ter em mente ao fazer o financiamento é que ele terá uma dívida a ser saldada após a faculdade
Especialistas afirmam que uma das primeiras coisas que o estudante deve ter em mente ao fazer o financiamento é que ele terá uma dívida a ser saldada após a faculdade | Foto: Shutterstock



Termina nesta sexta-feira (28) às 23 horas e 59 minutos pelo horário oficial de Brasília as inscrições para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do segundo semestre deste ano. Embora quem estiver lendo a reportagem disponha de menos de 24 horas para consultar a lista com as instituições particulares de ensino superior e os respectivos cursos que totalizam as 75 mil vagas ofertadas, ainda há tempo de decidir com embasamento se essa é a melhor opção para financiar a própria graduação.
Com a palavra, a economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, Marcela Kawauti: "Antes de recorrer ao Fies ou a alguma linha de crédito da própria instituição de ensino que oferta os cursos de graduação desejado, a pessoa tem que estar ciente de que estará contraindo um empréstimo, e como tal, irá sair da faculdade com uma dívida a ser saldada", alerta.

O SPC, nos últimos três estudos (2014, 2015 e 2016), elencou na pesquisa anual do Perfil do Inadimplente, divulgada todo mês de agosto, o item "Escola ou Faculdade" com um percentual oscilando entre 25% e 37,2% dentre os compromissos em atraso da população brasileira. Tal item na pesquisa engloba financiamentos estudantis e mensalidades em atraso.

Imagem ilustrativa da imagem Antes de tomar empréstimo para estudar, aprenda a calcular



Passos
Ter esse entendimento como ponto de partida é uma maneira de tirar o aspecto emocional que muitas vezes permeia o sonho de ser o primeiro da família a conseguir fazer uma faculdade, algo comum entre os tomadores desse tipo de recurso, que na maioria são integrantes das classes C e D.

O segundo passo é fazer uma análise criteriosa se a carreira e a instituição para as quais você busca esse crédito justificam esse esforço e risco para a sua vida financeira. "Tem que tomar muito cuidado, porque algumas carreiras da graduação não lhe darão um retorno financeiro superior a sua atividade atual. Isso, além de poder trazer frustração, para quem está investindo no aprimoramento, pode impactar negativamente na vida financeira futura, uma vez que nesse orçamento não sobrava a quantia suficiente para custear o estudo", aponta a economista.

Reserva
Compartilhando do mesmo direcionamento para a questão de tomar ou não um crédito para financiar os estudos, o consultor econômico e membro do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR), Carlos Magno Bittencourt, orienta que quem está em busca de um crédito para os estudos, muito provavelmente, tem na família um histórico não poupador. "O ideal seria que cada família conseguisse fazer uma reserva desde a mais tenra idade dos filhos, até mesmo um plano de previdência, visando o valor a ser desembolsado no futuro com a educação. Mas isso ainda é muito distante da nossa realidade, seja pela renda baixa, seja por aspectos culturais. Entretanto, quem se lança a tomar um empréstimo com esse fim deve pensar em outros caminhos para mudar essa trajetória e ter uma vida financeira mais equilibrada", sugere.

Muito além da dobradinha DD (Diploma e Dívida)
Os economistas ouvidos pela FOLHA convergem nas possibilidades que toda pessoa pode avaliar para lograr sucesso rumo à graduação. A primeira possibilidade é adiar o ingresso na universidade paga, visando se preparar para tentar uma vaga em uma instituição de ensino superior pública. "Vários cursinhos oferecem bolsas de estudos mediante uma seleção. Embora o acesso às universidades públicas seja mais difícil, é uma opção tanto para evitar a dívida futura, quanto possuir um diploma com o valor que ainda possuem as universidades estaduais e federais em nosso país", indica a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.
Enveredar para uma opção de curso do pós-médio é outro caminho. "Além de vivenciar uma área de trabalho que poderá tornar mais sólida a escolha da profissão para a qual a pessoa quer se graduar, ainda se aprende a praticar o planejamento financeiro em busca da realização de um projeto no futuro. Certamente, isso acarretará em uma vida financeira mais organizada", acredita o consultor econômico e membro do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR) Carlos Magno Bittencourt Bittencourt. (M.M.)

Crédito como caminho para o ‘up grade’
As recomendações feitas pelos economistas em nenhum momento invalidam o Fies, tampouco o valor de se investir na própria formação. A economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, exemplifica com uma situação bastante corriqueira. "Para uma pessoa que trabalha como assistente em um escritório de advocacia e já viu na prática o quanto pode se realizar como advogado, após uma consulta prévia com os profissionais da área sobre ganhos e perspectivas profissionais, pode vir a fazer um excelente negócio em buscar o crédito visando a formação para uma carreira já estruturada, na qual ele irá conseguir colocação por já estar na área". Nesse sentido, como a partir de 2018 o Fies será alterado, vale se inscrever até o final desta sexta-feira e torcer, uma vez que os juros de 6,5% ao ano são extremamente baixos. "Neste caso, poupar para depois custear o curso não compensa, uma vez que a taxa de 6,5% a.a é inferior, ao que a poupança remunera", ressalta Marcela.
Convivendo com a realidade de alunos, ex-alunos e familiares, o reitor do Centro Universitário Internacional Uninter, Benhur Gaio, observa de forma positiva as mudanças que o texto da Medida Provisória 785 pretende implementar no Fies, por conta de garantir sustentabilidade ao fundo. Quanto ao uso do recurso, independente do Fies deste segundo semestre ou os futuros, ele recomenda que o comprometimento da renda não deve ultrapassar 10%. "Para a tranquilidade da família, acho que esse é um bom percentual limite para se trabalhar e evitar uma complicação financeira na hora em que a conta começar a chegar", explica.

Os especialistas são uníssonos em defender que quem recorrer ao financiamento estudantil deve ter conhecimento sobre o valor total da dívida e, ao longo dos anos de graduação, buscar gerar a renda e poupar pensando na liquidação desse empréstimo. "Na própria instituição de ensino o aluno pode, desde o primeiro ano do curso, se envolver em trabalhos de iniciação científica, no qual há bolsas, ou se tornar monitor de professores", elucida Marcela. (M.M.)

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