Agência Estado
A suspensão das ações da Brahma e do Grupo An tarctica na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), logo no início do pregão de ontem, foi o sinal de alerta para que o mercado soubesse que alguma coisa estranha estava acontecendo. De fato, estava. As duas companhias, consideradas as principais fabricantes de cerveja e refrigerantes do Brasil, depois de brigar décadas por uma fatia maior do mercado brasileiro, resolveram associar-se, numa operação que envolve ativos de R$ 8,1 bilhões - o maior negócio já realizado no País.
Em comunicado feito ao mercado, Brahma e Antarctica demostraram que vão reunir numa terceira empresa, a Companhia de Bebidas das Américas (Amberv), todos os recursos: fábricas em 18 estados, além de indústrias no Uruguai, Argentina, e Venezuela. As duas empresas também exportam para mais de 25 países. A AmBev também nasce com um patrimônio líquido de US$ 2,3 bilhões.
A AmBev surge nas primeiras colocações no ranking mundial de cerveja, tendo 30 mil acionistas. Os principais sócios da empresa são Jorge Paulo Lemann, Roberto Sicupira e Marcel Hermann Telles (Brahma) e Fundação Antarctica. Os demais acionistas poderão optar futuramente pela troca de ações. A relação de troca de ações ficou: uma ação da Ambev por uma ação da Brahma; 48,63 ações da Ambev por uma ação da Antarctica.
Parece estranho dois competidores que se enfrentaram durante cem anos e de uma hora para outra viram parceiros. Mas os tempos são outros. A globalização hoje passa por cima dessas diferenças. De olho na evolução do Mercosul e também da Alca - que envolve também os Estados Unidos, Canadá e México -, a AmBev pensa estar pronta para 2005.
Em cinco anos, os dois ex-concorrentes acreditam que não haverá mais fronteiras. Qual será o futuro da dupla americana de cervejeiros Budweiser e Miller? Eles ainda são sócios da Antarctica e da Brahma em outras empresas no Brasil.
Donos de 74% do mercado brasileiro de cerveja, Brahma e Antarctica, mesmo virando sócios, vão manter suas estruturas de negócios separadas internamente. Ontem, publicitários que estiveram nas reuniões das duas companhias ficaram sabendo que terão de continuar competindo. ‘‘Vamos brigar com todos os refrigerantes’’, disse um desses participantes.
Aliás, a convocação das agências foi mais para acalmar os publicitários e reduzir especulações. A única coisa nova nesse segmento foi a entrada da Salles/DMB&B, para cuidar da conta institucional da nova empresa.
Outro publicitário que participou da reunião comentou que as operações de distribuição, industrias, produtos e marcas continuarão sendo administradas separadamente pelas atuais empresas. No entanto, executivos de ambas vão formar a equipe para comandar a Ambev.
Apesar do anúncio das operações, no mercado nem todos estavam covencidos que se tratava de uma associação. Muitos estavam pensando que a Brahma estava comprando a Antarctica.
A história toda partiu, no início do ano, após a desvalorização do real, quando a Antarctica tinha muitos contratos em dólar e não tinha hedge, ficando assim com problemas de caixa, inclusive tendo de atrasar pagamentos a fornecedores. A Brahma, administrada por banqueiros, teve o mesmo problemas, pois reduziu o lucro de 98 exatamante para ter cobertura de suas operações.
No comunicado das duas companhias, elas mostram que as vendas domésticas totalizaram, em 1998, R$ 10,3 bilhões, equivalentes a mais US$ 8,5 bilhões. Na produção foram fabricados 8,9 bilhões de litros de bebida, sendo 6,4 bilhões de litros de cervejas e 2,5 bilhões de litros de refrigerantes, águas, chás e isotônicos.
Na nota, elas explicaram que, no ano passado,pagaram mais de R$ 4,2 bilhões em impostos. Isto permite colocar a AmBev, já no seu nascimento, como a segunda maior contribuinte do País conforme dados publicados pela Revista Maiores e Melhores de Exame. A AmBev operará com três redes de distribuição independentes, da Antarctica, da Brahma e da Skol, constituídas por mais de 770 empresas autônomas.

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