Ano novo, cenário econômico difícil
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quinta-feira, 06 de janeiro de 2011
Gisele Mendonça<br> Reportagem Local 
A previsão de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2011, segundo o Banco Central, é de 4,50%, projeção bem abaixo de 2010, cuja estimativa de crescimento econômico é de 7,61% - ainda não há números fechados. Botar o ''pé no freio'' da economia é uma necessidade da equipe do atual governo, que encontrou um país com inflação em ascensão, endividamento público crescente e gastos governamentais em excesso.
A análise é da doutora em economia Virene Roxo Matesco, professora da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), para quem o novo governo terá de entrar já fazendo um ajuste fiscal profundo e tentar diminuir a pressão inflacionária. ''Esse primeiro ano deverá ser de arrumação da casa para que o Brasil volte a entrar nos trilhos. A situação não é nada confortável. Embora tenhamos hoje um bom nível de reservas internacionais, o nosso deficit de comércio vai bater em torno US$ 50 milhões de dólares, o maior da história no Brasil'', afirma.
A economista explica que vários fatores provocaram o aquecimento da economia em 2010. Além das eleições - período em que o governo gasta mais -, houve aumento dos salários dos funcionários públicos, do bolsa-família e do salário mínimo. Com mais renda, os brasileiros consumiram mais, incentivados ainda pela facilidade de acesso ao crédito. Em 2011, porém, o cenário precisa mudar.
Crédito apertado
''O governo deverá diminuir seus gastos porque o endividamento público cresceu muito'', pondera Virene. Ela lembra que o crédito já está ''mais apertado'' levando em conta que no final do ano passado o Banco Central lançou um pacote de contenção de crédito porque a inadimplência estava muito alta.
Junto com a contenção dos gastos públicos vem o desafio de frear a inflação. Para 2011, a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em torno de 5,32%. ''Quando a demanda cresce mais do que a oferta os preços sobem rapidamente. Então, o governo está aí com um problema'', repara. ''Por tudo isso, 2011 será um ano de PIB bem menor do que em 2010. A tendência é de baixa''.
Economia sustentável
Para ser sustentável economicamente, afirma Virene, o Brasil precisa investir em infraestrutura e na ampliação da capacidade instalada das empresas. No entanto, o investimento é baixo nessas áreas. ''Tudo conspira para que o nosso crescimento (econômico) não seja sustentável, o que é uma lástima'', constata.
Segundo a economista, embora tenha apresentado uma boa performance no terceiro trimestre de 2010, o nível de investimento brasileiro está muito abaixo do que o registrado em outros países. ''A China, por exemplo, destina algo em torno de 35% a 40% do PIB em investimento e ampliação da capacidade instalada das empresas e em infraestrutura, enquanto o Brasil não ultrapassa 19%''.
Virene constata que o Brasil ainda tem muitas necessidades não atendidas em relação a estradas, portos e aeroportos, infraestrutura de saúde e de educação. ''Nós podemos chegar a um colapso dos serviços de infraestrutura desse país. Além disso, a burocracia asfixia nossas empresas, nossa carga tributária é desumana e o grau de corrupção no país é muito alto, o que onera os projetos de investimentos públicos'', afirma a economista.
'Aloprados do governo'
Diante deste cenário, o primeiro ano do governo Dilma Rousseff (PT) não deve ser nada fácil, na análise da professora da FGV. ''Espero que a nova equipe seja muito mais intolerante com a corrupção do que foi o governo Lula. E que atue fortemente nos chamados 'aloprados' do governo, aquele grupo que só pensa em si e rouba o dinheiro da coletividade, se julgando mais esperto do que todos''.
E completa: ''Como diz Drummond (o poeta Carlos Drummond de Andrade), o dia 31 de dezembro foi inventado para que as esperanças fossem renovadas. Então, como surgiu junto com o novo ano um novo governo, o que esperamos é que tudo seja diferente, porque chegamos ao nosso limite de tolerância''.


