Ano do cofrinho
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sexta-feira, 05 de janeiro de 2018
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
Se é possível buscar um lado bom em uma crise econômica, a necessidade de organizar o próprio orçamento virou a principal preocupação do brasileiro. Segundo pesquisa do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas), 45% dos entrevistados escolheram juntar dinheiro como principal objetivo para 2018. Em situação mais complicada, outros 27% pretendem sair do vermelho.
É a perspectiva de dias melhores que parece alimentar o desejo dos consumidores. A insegurança em relação à recuperação nacional persiste, mas a compreensão parece ser a de que o fundo do poço financeiro ficou em 2017. Para 55%, a impressão é que a economia piorou em 2017 na comparação com 2016. Outros 32% consideraram que ficou igual e somente 13% viram melhora. Porém, 54% creem que 2018 será melhor. A pesquisa foi feita com 682 pessoas acima de 18 anos, de todas as classes sociais em todas as regiões brasileiras.
Contudo, 59,9 milhões de pessoas terminaram 2017 negativadas, o que mostra que cumprir tais objetivos exigirá mais do que querer. A inadimplência mais comum é em parcelas do cartão de crédito (81%), seguida de dívidas vencidas no cartão de lojas (69%) e por parcelas pendentes em carnês ou boletos (67%). E a média do valor em atraso é de R$ 3.902, ainda que 57% nem mesmo sabiam quanto devem.
Com o cenário de desemprego, 85% dos brasileiros fizeram cortes no orçamento e o consumo e o lazer foram os alvos mais afetados. Os maiores cortes no consumo foram nas refeições fora de casa (63%), em vestuário, calçados e acessórios (56%), em itens supérfluos em supermercados (49%), em bares e baladas (48%), cinema e teatro (47%) e viagens (47%).
A economista chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti, afirma, no estudo, que o ano foi de aperto financeiro. "Muitas pessoas viram suas contas fugirem ao controle, ocasionando o endividamento e uma série de dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo, aqueles que planejaram os gastos e organizaram as finanças atravessaram este período de forma menos atribulada."

Desemprego
Para o delegado em Londrina do Corecon (Conselho Regional de Economia) do Paraná, Laércio Rodrigues de Oliveira, o maior problema foi o fechamento de postos de trabalho. "A inadimplência e o desemprego ainda estão altos e não devem ter uma melhora rápida. Muitos economistas preveem que continue acima de 10% em 2018", diz, ao considerar que foi este a maior causa da queda de consumo.
Oliveira enxerga sinais positivos, como menor inflação, uma tendência à maior produtividade no setor produtivo e taxas de juros mais baixas, que deram um ânimo ao consumidor no último trimestre de 2017. Mesmo assim, afirma que o estrago foi grande. "Muitos comerciantes de refeições fora de casa em Londrina citam de 30% a 40% de perda de faturamento, o que fez com que demitissem ou mesmo fechassem", diz. "E isso não é restrito a Londrina, porque Curitiba e São Paulo estão cheias de lanchonetes fechadas em áreas de grande movimento."
Consultor de finanças em Londrina, Maycon Putti afirma que os dados do consumo maior no último trimestre de 2017 são bons para a economia, mas não necessariamente para as finanças pessoais. "São mais pessoas comprando e uma parcela delas estava inadimplente. Viemos de dois anos de restrição no consumo e as pessoas voltaram a consumir no fim de 2017, mas sem planejamento financeiro", diz.
Putti lembra que a maioria nem mesmo pede o comprovante do cartão de crédito para controlar os gastos. "É mais fácil se segurar quando se sabe quanto entra e quando sai em um mês. É uma conta simples, que mostra o seu saldo", afirma. "Hoje temos aplicativos de telefone que auxiliam isso, mas a maioria ainda funciona pelo empirismo."
Um em cada cinco buscará trabalho extra
Em busca de mais dinheiro para poupar ou sair do vermelho, 22% dos brasileiros pretendem aumentar a renda com trabalho extra, segundo pesquisa do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas). Depois de um período de desemprego elevado, a procura por bicos, segundos empregos ou empreendimentos tende a aumentar.
O consultor financeiro Maycon Putti afirma que é preciso planejar o orçamento e cortar gastos supérfluos, mas que buscar outras fontes de renda é uma medida que deve ser considerada em todos os casos. "Em vez de apenas cortar, a pessoa pode incrementar a receita ao prestar serviços de acordo com o conhecimento que tem no cargo em que trabalha, virar representante de cosméticos e outros produtos ou vender alimentos no bairro onde mora", diz.
Putti desenha três estágios para a organização financeira. O primeiro é sair do vermelho, que deve unir o corte de despesas e o aumento de receitas. "O segundo é equilibrar o orçamento e fazer uma reserva de emergência, que pode ser em um investimento que tenha liquidez, mas deve corresponder a seis meses da despesa da casa", diz. Somente então ele sugere aplicações de longo prazo. (F.G.)


