Ano começa com teste para empresas e sindicalistas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de janeiro de 1998
Liliana Pinheiro Agência Estado São Paulo 
ArquivoNova realidadeAs greves dão lugar à concessões, como redução da jornada. Mas ano político pode amenizar criseO ano-novo começa com um teste para empresas e sindicalistas: quem, afinal, vai preferir reduzir temporariamente salários a demitir? O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, informou que até agora somente uma pequena empresa, a Misura, com 73 empregados, aderiu ao acordo de redução de jornada de trabalho, em até 25%, e de salários, em até 10%, em troca de estabilidade aos empregados durante cinco meses.
Pelo menos 80% das empresas da base, de 290 mil empregados, deram férias coletivas ou licenças remuneradas, desde pouco antes do Natal e até meados da segunda semana do ano-novo. O acordo de redução de salários só vale para as indústrias de autopeças, que ameaçavam efetuar 8 mil demissões no Estado de São Paulo. Vamos ver o que acontecerá na volta das férias, afirmou Paulinho. Mas, mesmo com o nosso acordo nas autopeças, eu espero demissões na indústria porque setores de máquinas e eletroeletrônicos começam a ir muito mal.
A adesão dependerá, basicamente, da confiança dos empresários de que as coisas vão melhorar a partir de abril e maio, quando a taxa de juros, se tudo der certo, voltará aos níveis de antes da crise mundial das bolsas de valores. Se não houver confiança, as demissões serão o caminho. Paulinho disse ter certeza de que a situação deve melhorar.
É ano eleitoral e, se o desemprego continuar crescendo, qualquer um ganhará do presidente Fernando Henrique Cardoso, disse. Paulinho apóia a reeleição do presidente, mas não aposta em vitória certa, como em tempos anteriores.
As dúvidas quanto ao desempenho do PSDB nas urnas surgiram com as últimas previsões: o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetou para o Brasil crescimento econômico de 1,5% este ano. O economista Márcio Pochmann, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), calculou que, com crescimento desta ordem _ ele usou como base 1,4% _, o desemprego saltará, em meados de 1998, para cerca de 20% na Grande São Paulo (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos e Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) e 10% no País (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O desemprego vai pautar as duas centrais sindicais. A Força Sindical continuará a buscar acordos de estabilidade temporária no emprego, ainda que custe redução de salários. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) é contra a redução de salários, mas não poderá impedir negociações sobre redução de benefícios e pacote de demissões voluntárias, como a que está se desenvolvendo hoje na Volkswagen, para evitar o corte em massa sem benefício algum.
Desemprego Cerca de 30 mil empregados temporários do comércio da cidade de São Paulo ficarão sem ocupação a partir deste mês. Além deles, o vice-presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, Ricardo Patah, calcula que outros 10 mil, que têm contratos fixos, perderão os postos de trabalho em janeiro e fevereiro, por conta do fim da euforia de Natal e da expectativa de empresários de dificuldades para este ano. Em 1997, 8 mil fixos perderem os empregos.
Em 1997, Patah cansou de dizer que o setor de comércio era um celeiro de empregos, pronto para compensar, ao menos em parte, as reestruturações na indústria, que significaram alto número de demissões. Mas, às vésperas de 1998, ele mudou de idéia. Estou percebendo que as coisas não são bem assim: o comércio também está demitindo desde novembro, e não há sinais de mudança no quadro nos três primeiros meses do ano.
Canibalismo entre shoppings O sindicalista disse esperar alguma recuperação no segundo semestre, embora desconfie de que em pouco tempo se falará em desemprego estrutural no comércio, fruto da hegemonia de poucos e poderosos grupos no setor, da automação e do aumento de produtividade por empregado.
A criação de shopping centers chegou ao limite, na opinião dele. Está havendo canibalismo entre os shoppings, na disputa por clientes, disse. O esgotamento deste tipo de empreendimento deve contaminar em breve a disposição de empresários de investir em supermercados, segmento que criou empregos em 1997.
A concentração de negócios em grandes shoppings e o domínio de alguns fortes grupos econômicos em setores como o de supermercados pareceram num primeiro momento ser a saída para o crescimento do emprego, um sinal de prosperidade. Mas, segundo ele, isso vem se mostrando prejudicial. Grandes grupos estão destruindo os pequenos, que davam mais empregos, disse. Hoje, mesmo quando as vendas crescem, o número de funcionários diminui.


