Ano 2000 começa com inflação em alta
Agência Estado
De São Paulo
A desvalorização do real, que ainda não foi repassada para o consumidor por causa do desaquecimento da economia, deve fazer com que o ano 2000 comece com uma inflação reprimida de 9,4%. Nem toda essa inflação potencial deverá chegar ao bolso da população no ano que vem, caso o ritmo de produção e vendas volte a crescer moderamente. Mas esse indicador é suficientemente elevado para justificar algum cuidado com possíveis pressões inflacionárias no primeiro semestre do próximo ano, avalia o professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e sócio da Tendências Consultoria Econômica, José Márcio Camargo.
Ele afirma que o tempo necessário para que um aumento de demanda se reflita nos preços cobrados do consumidor gira em torno de seis meses. Logo, se a economia voltar a crescer neste semestre, o impacto se dará no início do próximo ano. Além disso, essa inflação reprimida supera de longe a meta de inflação prevista pelo governo para o ano que vem, de 6%, que poderá oscilar entre 4% e 8%. Para concluir que a inflação reprimida é de 9,4%, Camargo calculou primeiro qual teria sido o crescimento do Índice de Preços no Atacado (IPA) com a desvalorização do real, se o nível de atividade não tivesse recuado, e comparou esse resultado com IPA efetivo estimado para este ano, já considerando a restrição na demanda.
A diferença entre os dois indicadores foi de 5,5 pontos porcentuais. O restante (3,9 pontos porcentuais) para totalizar a inflação reprimida de 9,4% resulta dos reajustes provocados pela desvalorização que não puderam ser transferidos para os produtos que sofrem concorrência externa (comercializáveis). Esses produtos compõem o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) e têm seu consumo influenciado pelas restrições na demanda. É consenso entre os economistas que a demanda fraca deverá segurar os repasses da alta de preços acumulada no atacado.
Análise feita pela economista do BCN Alliance, Ana Cristina Gonçalves da Costa, com base nas séries históricas dessazonalizadas da produção e das vendas da indústria como um todo mostra que os estoques estão acima da tendência histórica para esta época do ano. O crédito também, diz a economista, continua caro, o que segura as vendas.
Para o chefe do Centro de Estudos de Preços da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Sidney de Melo Cota, se a economia tivesse crescendo normalmente, a inflação deste ano seria bem maior. O repique da inflação por causa das tarifas e dos combustíveis ocorreu em julho. A partir de agora o caminho será descendente, podendo haver uma nova subida de preços em novembro e dezembro, provocada pela maior disponibilidade de renda na economia, ressalta Cota.





