Analistas prevêem agravamento da crise
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domingo, 17 de junho de 2001
Sandra Balbi Agência Folha 
Uma pesquisa sobre os rumos da economia neste ano, realizada pelo iG Finance, de São Paulo, junto a 13 instituições financeiras, mostra que a crise de energia deu um nó na cabeça dos analistas de mercado. Num intervalo de apenas 13 dias eles reviram suas projeções para os principais indicadores econômicos e as suas sugestões de investimento.
No dia 18 de maio, ao responderem às questões formuladas pelo Termômetro iG Finance, os analistas mostravam o mesmo otimismo róseo com o país, manifestado desde o início do ano. Refeita parcialmente no dia 1º deste mês, a pesquisa revela que o humor do mercado azedou e os profissionais trabalham com um cenário cinzento.
Agora, a maioria dos entrevistados diz acreditar que o PIB vai crescer menos, a inflação será maior e a Bolsa terá um desempenho inferior ao previsto anteriormente.
A crise de energia foi o fator de maior impacto sobre as expectativas no primeiro semestre, diz Fernando Barrozo do Amaral, diretor de produtos do iG Finance. Ainda se desconhece sua verdadeira extensão e consequências para a economia, acrescenta.
Até o governo anunciar as medidas de emergência para evitar o apagão, havia um coro afinado no mercado - ecoando as análises de Brasília - que entoava bons fundamentos da economia interna.
Apesar da crise americana e argentina, a maioria dos analistas previa que o país cresceria entre 4% e 5%, os juros caminhariam para taxas civilizadas e os lucros das empresas cresceriam catapultando o preço das ações.
O negócio era investir na Bolsa e em fundos de renda fixa que pagam juros prefixados. As vozes dissonantes eram ignoradas.
Luiz Antonio Vaz das Neves, diretor de pesquisa da Planner Corretora, era um dos críticos de plantão no meio financeiro. Estava na cara que este ano seria de contaminação da economia pelo cenário externo, diz ele. Segundo Vaz das Neves, os analistas embarcaram na euforia gregoriana vendida pelo governo desde o início do ano e agora usam a crise de energia como desculpa para ajustar suas projeções.
Quem navegou no otimismo nos últimos meses se defende. Os indicadores de produção vinham crescendo. De fato, não havia excesso de otimismo, embora sempre exista torcida por boas notícias no mercado, argumenta Aloísio Lemos, analista da Lopes Filho & Associados. Com o apagão, temos de nos render às evidências. Não dá para imaginar crescimento econômico no segundo semestre.
Mas, para Vaz das Neves, o governo induziu o mercado ao erro. O governo tinha consciência da gravidade do quadro energético, mas tentou ganhar tempo vendendo otimismo para garantir a entrada de investimento estrangeiro no primeiro trimestre. Com isso, buscava-se, segundo ele, reduzir o déficit no balanço de pagamentos (total das contas externas do país).
No mercado financeiro já são feitas projeções de ingressos no valor de US$ 18 bilhões e não de US$ 24 bilhões, como previa o governo no início do ano. Dificilmente passaremos de US$ 20 bilhões de investimentos externos este ano, diz Lellis. E é a perspectiva de escassez da moeda americana no mercado que está empurrando a cotação do dólar para o alto.
Para a maioria dos analistas, a taxa de juros básica da economia (Selic) deverá continuar subindo. Segundo a pesquisa, 69,23% dos entrevistados dizem acreditar que a taxa chegará ao final do ano entre 15% e 17% ao ano. Para 7,69% dos analistas, a taxa poderá ficar acima dos 17% ao ano. Atualmente, a Selic está em 16,75%.
Com o aumento da incerteza em maio e junho, o Banco Central deverá continuar subindo o juro para manter a coerência, diz Luiz Neves, diretor de investimentos da Dresdner Asset Management.
Segundo ele, está difícil apontar opções claras de investimentos, pois além da crise energética há uma desaceleração da economia global. A recuperação da economia americana, que era esperada para o segundo semestre, não vai ocorrer, diz ele.


