WashingtonTido como inevitável e parte necessária dos difíceis passos que a Argentina precisa dar para conter a aguda crise econômica que atravessa, o fim da paridade entre o peso foi recebido com grande ceticismopor analistas em Wall Street e provocou previsões pessimistas para as próximas semanas e meses. ‘‘O que eles fizeram foi colocar a carroça na frente dos bois’’, disse o economista Paulo Leme, principal estrategista do banco de investimento Goldman Sachs para a América Latina. ‘‘A mudança do regime cambial é um elemento fundamental para um processo de recuperação da Argentina, mas é muito difícil ver a credibilidade e a viabilidade do novo regime cambial sem que haja um alicerce fiscal, um Banco Central capaz de operar uma regra monetária rígida e reformas estruturais definidas’’, disse Leme. ‘‘O que foi contemplado, até o momento, está fadado ao fracasso.’’
‘‘Nós todos sabíamos que o regime cambial tinha que ser redefinido, mas a má notícia é que a mudança anunciada no fim da semana não fez essa redefinição’’, afirmou Arturo Porzecanski, principal economista para mercados emergentes do ABN-AMRO. ‘‘O peso está numa nova relação fixo com o dólar, mas o regime de câmbio misto adotado não tem viabilidade e dentro de algumas semanas a Argentina terá que flutuar o peso, porque continuarão a prever o pior e sairão atrás de dólares, o que significa que a escassez de dólares continuará e o governo não terá como defender a nova taxa fixa de câmbio’’, explicou Porzecanski.
Os dois economistas concordam que é positivo o fato de Duhalde ter conseguido apoio político para acabar com a paridade. Mas lamentaram que ele não tenha usado esse apoio para ir mais fundo. ‘‘Por corajoso que tenha sido tomar algum tipo de decisão, o que se anunciou em Buenos Aires foi uma decisão incompleta’’, disse Porzecanski.
Um dos dilemas por resolver é a dificílima situação criada pelos controles ao acesso de depositantes às suas contas bancárias que o governo de De la Rúa adotou numa vã tentativa de defender o regime cambial. ‘‘Eles estão numa cilada’’, disse Leme. ‘‘Se não liberalizarem esses depósitos, qualquer operação econômica permanecerá inviável, pois a economia continuará sem capital de giro’’, explicou. ‘‘Isso, por sua vez, inviabiliza qualquer programa fiscal porque mantém a economia deprimida; por outro lado, se eles abrirem as comportas da represa, haverá, instantanemente, uma explosão cambial e da inflação’’.
Atentos ao discurso populista de Duhalde, outros analistas interpretaram o fim da conversibilidade, da forma como foi feita, como um retorno a políticas que os argentinos já testaram e sabem ser equivocadas. ‘‘O governo Duhalde parece que está voltando às políticas fracassadas dos anos 70 e 80, que resultaram em hiperinflação e no quase colapso do setor privado’’, afirmou ontem o Grupo G-7, uma firma de consultoria e análise, num boletim a seus clientes.

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