Analistas já falam em juro de 27%
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de julho de 2001
Das agências De São Paulo 
O real continuou ontem marcado por uma forte volatilidade, num país nada convencido da capacidade de manobra da Argentina, e que espera um iminente anúncio de medidas do governo para frear o efeito contagioso do país vizinho. Os mercados brasileiros amanheceram nervosos e voláteis ontem e o real abriu de manhã com um ritmo baixo, que chegou a um novo recorde histórico acima dos R$ 2,60 por dólar.
Depois de uma intervenção confirmada do Banco Central, e enquanto os mercados ficavam na expectativa de definições na Argentina, o real conseguiu reverter as fortes pressões para fechar em leve recuperação de 0,19% frente ao dólar, situado em R$ 2,580 para a compra e R$ 2,585 para a venda. Na sexta-feira, o dólar fechou a R$ 2,599.
A bolsa de Valores de São Paulo também operou com altos e baixos e fechou com baixa de 1,89% e com seu índice Bovespa em 13.811 pontos. O mercado vai continuar nervoso esta semana, sem dúvida, e o real continuará pressionando, com maior ou menor intensidade segundo as notícias que são recebidas da Argentina, disse o gerente de Coinvalores, Paulino Botelho.
Sem dúvida, o que se espera agora no Brasil é uma rápida resposta de política econômica, com medidas em três direções: aumento dos juros, ajuste fiscal e um anúncio de apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), destacou o analista chefe de JP Morgan, Marcelo Carvalho. Segundo ele, ainda não se sabe o que o governo está esperando para fazer os anúncios, que poderia começar esta semana com um aumento dos juros.
Acreditamos que o Banco Central anunciará um aumento significativo da taxa básica de juros dos atuais 18,25% a 27% na reunião desta semana do Comitê de Política Monetária ou nas próximas semanas, segundo Carvalho. Paralelamente, o governo deverá aumentar o esforço fiscal para frear o impacto do aumento dos juros da dívida pública. Precisamente, há analistas estimando que a crise argentina exigirá um ajuste de R$ 5 bilhões (cerca de US$ 2 bilhões), equivalente a aproximadamente meio ponto do Produto Interno Bruto (PIB).
Finalmente, está previsto um anúncio de que o FMI está disposto a evitar ou conter o contágio da Argentina ao Brasil, disse Carvalho. O presidente da Associação de Analistas de Mercado de Capitais, Francisco Petros, também disse que deverão ser tomadas medidas nessas três frentes, que deverão começar com uma definição da taxa básica de juros por parte do Banco Central. Além disso, indicou: acreditamos que está sendo negociado um apoio com o FMI e sendo debatido um pacote fiscal para minimizar os impactos do câmbio e os altos juros da dívida (de cerca de US$ 250 bilhões ao câmbio atual, que representa 51,9% do Produto Interno Bruto).
No Brasil cresce a impressão de que a Argentina enfrenta um abismo que obrigará o país vizinho a declarar uma moratória do pagamento da dívida, e também se teme que Buenos Aires rompa a paridade entre o dólar e o peso, e isso tem multiplicado o nervosismo nos dois países.
Na Argentina existe o risco de desvalorização. O governo está tentando adiar a decisão e poderá decretar moratória antes de liberar o câmbio, opina na revista o economista chefe da Lloyds em São Paulo, Odair Abate. O analista repetia o que está se transformando numa segunda tese no Brasil: que o que o país precisa é de uma rápida definição na Argentina, ainda que esta signifique a quebra. Uma solução para o problema argentino, seja qual for, será boa para o Brasil. A agonia lenta traz prejuízos no campo da inflação, com alta no dólar e nos juros, no nível da atividade econômica e até no calendário eleitoral, disse Abate.


