Analistas divergem sobre futuro do Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 1998
Agência Estado 
O agravamento da crise russa e seus efeitos sobre os países emergentes latino-americanos fizeram que com os analistas financeiros de grandes bancos europeus trabalhassem durante toda a semana passada sobre cenários diferentes da evolução da situação a curto prazo em diversos países do continente, entre eles o Brasil. Alguns desses especialistas entrevistados por Reali Júnior, da Agência Estado - os conselheiros econômicos do Paribas e do Sudameris, John Welsch e Jean Luc Chalumeau, por exemplo - acham que, apesar dos perigos que rondam a economia brasileira, o otimismo ainda prevalece.
Para o representante do Sudameris, os detentores de capitais farão, mais cedo do que se imagina, diferenças entre os países emergentes da Ásia, Rússia e da América Latina, convencido que todas as comparações são favoráveis ao continente latino-americano. Já o economista do Paribas, John Welsch, confia na capacidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, que possui reservas políticas para defender o real: Já vimos o presidente Cardoso atuar de uma forma ultra responsável em novembro do ano passado durante a crise asiática. Por isso, mesmo diante da crise, o Paribas não cortou nada em termos de linhas de créditos para outros bancos, apesar de ter tido sempre uma postura conservadora em termos de riscos. No caso atual, como somos conservadores, ainda estamos no mercado.
O cenário em que tem trabalhado é o de um Brasil que se defende e sobreviverá à crise russa, mas terá de partir para uma segunda rodada de reformas e um forte aperto fiscal. A seu ver, o grande problema é a luta contra o cronômetro, na expectativa das eleições de outubro. Ele está preocupado com a rápida saída de dólares do País (1 a 2 bilhões de dólares por dia), não tendo ainda identificado nenhum sinal de aperto monetário indispensável. Para o especialista, o Banco Central não parece querer atuar antes das eleições.
Ele compara essa situação de fuga de capitais com a do México de 1994: Vimos os dólares deixando aquele país, enquanto o Banco Central do México procurava dar liquidez ao sistema. Por maiores que sejam as reservas estimadas em 60 bilhões de dólares, essa situação preocupa, acrescentou. Para o economista-chefe do Paribas não será esse ataque atual que vai provocar a desvalorização do real, acreditando que o País pode suportar ainda dois ataques dessa grandeza antes de qualquer desvalorização. Por essa razão sua análise ainda é positiva sobre a evolução da situação financeira brasileira.
O analista Jean Luc Chalumeau trabalha em cima de dois cenários para o continente latino-americano, um pessimista e outro otimista, optando pelo segundo como saída mais provável, o que explica o fato desse banco que possui muitos papéis brasileiros não ter adotado uma posição de venda, disposto a continuar seus investimentos no Brasil. Quando indagado por sua direção que caminho seguir no Brasil, Jean Luc Chalumeau não hesitou: Aconselhei a direção a não vender porque, a meu ver, trata-se de um problema passageiro de mais ou menos dois meses. Em seguida, tudo vai se normalizar.
Ele acredita que os países emergentes como o Brasil vão aproveitar essa ocasião de crise para corrigir um certo excesso de liberalismo, passando para um liberalismo mais controlado ou moderado, e não mais como há vinte anos chegou a preconizar o Fundo Monetário. Para ele, estamos assistindo ao fim do império do FMI. Os países latino-americanos cometeram o erro de ceder demasiadamente ao FMI e abraçaram muito rapidamente a abertura e a liberalização da economia, mas souberam construir um conjunto coerente, o Mercosul, razão pela qual estão bem armados.
Na hipótese do cenário otimista, o que se prevê é a substituição das altas perniciosas das taxas de juros pelo retorno dos controles de câmbio, tendo citado a Malásia que já partiu para essa solução, pelo menos por um período transitório. A seu ver, o Brasil não terá dificuldade em aplicar essa medida por ser considerado um expert na manipulação dos controles de câmbio.
Chalumeau cita a China como o único país da Ásia que não foi ainda atingido pela crise. Único também a manter controle cambial. Ao mesmo tempo, o cenário otimista prevê medidas para desencorajar os movimentos de capitais especulativos. O Chile obteve resultados significativos, protegendo-se da entrada desses capitais de curto prazo que passaram de 66% para apenas 10% de 1990 a 1996 , enquanto os investimentos diretos foram multiplicados por sete. O próprio Brasil, segundo ele, já começou a trilhar o mesmo caminho.
Chalumeau constata que o crescimento de certos mercados financeiros atingiu um nível de crescimento muito superior ao crescimento da produção. No momento em que os operadores tomaram consciência da impossibilidade da progressão indefinida desse desequilíbrio, essa progressão miraculosa acabou sendo bruscamente estancada.
Quanto ao cenário pessimista, menos provável, o economista do Sudameris parte da idéia de que a crise é excepcional e que nenhum entre os países emergentes será poupado. As autoridades tentam utilizar a arma das taxas de juros e o Brasil seria obrigado a elevar as suas aos níveis do fim de 1997, acima de 40%, não escapando a uma desvalorização do real, sustando investimentos e provocando uma asfixia das empresas, o que provocaria falências e recessão.
Nesse tipo de cenário, a crise do Japão se agravaria pelo malogro do plano de reestruturação do sistema bancário e a América Latina mergulharia em diversos tipos de crise. O Brasil e o México, envolvidos por problemas de desequilíbrio de balança de conta corrente, teriam que adotar duras medidas de austeridade.


