A exemplo do que aconteceu no Brasil no ano 2002, o amido de mandioca volta ser o salvo-conduto do setor de farinhas de trigo no enfrentamento à insuficiência de produção do grão pelo País. Com o título de maior comprador mundial de trigo, o Brasil não consegue produzir nem 50% de suas necessidades. Para dar conta de seu consumo, terá de importar este ano 7,2 milhões de toneladas, incluindo farinhas e pré-misturas. O Brasil deve colher entre 4,5 milhões e 5 milhões de toneladas de trigo. Porém, seu consumo está estimado em 10 milhões de toneladas.
No ano 2002, quando a taxa cambial atingiu R$ 4,00/dólar, o preço do amido de mandioca, no atacado, ficou na metade do valor do quilo do trigo, o que gerou grande correria de moinhos e panificadores ao setor de amido para buscar o substituto. ''O setor vendeu 250 mil toneladas de amido de mandioca num curto período de quatro meses daquele ano'', quantifica o Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam), Ivo Pierin Júnior.
Considerando-se que o preço do trigo está em alta no mercado mundial, devido à escassez do grão em todos os Continentes, a conta do Brasil com importações aumenta, significativamente. Na Bolsa de Kansas, onde se negocia trigo de melhor qualidade, as cotações do produto acumulam alta de 26% este ano. Em 12 meses, o aumento foi de 125%.
''Hoje a corrida pelo amido de mandioca ainda se dá em passos lentos, mas isto vai mudar rapidamente, pois a situação de abastecimento de trigo poderá se agravar e fazer com que moinhos e indústrias de panificação sejam obrigados a consumir amido de amido/fécula de mandioca a níveis acima de 2002'', observa João Eduardo Pasquini, Presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Mandioca e Derivados.
Para Pasquini a situação do trigo deverá se agravar mais a partir do mês de maio, já que os estoques mundiais são os menores dos últimos 40 anos. Prevê que, nesse mês, devido ao desabastecimento de trigo, ocorrerá uma corrida de moinhos e indústrias de panificação para adquirir amido/fécula de mandioca pra adicionar à farinha de trigo.
Ele considera que ''o setor de amido de mandioca já ajudou muito o País a amenizar a dependência do trigo importado, e isto deverá se repetir novamente''.
Ingerência
Pasquini lembra que está em tramitação no Congresso Nacional, desde 2001, um projeto-de-lei que obriga a adição de derivados de mandioca à farinha de trigo. Já aprovado na Câmara, o projeto-de-lei encontra-se paralisado no Senado. Isso acontece, conforme ele, ''devido à ingerência do Governo Federal, que pediu, por meio do Líder do Governo no Senado, que fosse tirado de tramitação, com o pretexto de se discutir melhor o impacto sobre a arrecadação pública, já que o mesmo estabelecia benefícios ficais para as indústrias de trigo e de mandioca''.

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