Até 2020, o mundo vai precisar de 19% mais carne e 21,8% mais leite para alimentar uma população que cresce em ritmo acelerado. São 75 milhões de pessoas a mais por ano - 88% delas na Ásia e na África. E a América Latina será a principal responsável por atender a esse aumento de demanda. O assunto foi tema da 1ª América Bovina, conferência realizada pela Biogénesis Bagó, no final de abril, em Puerto Iguazu, na Argentina. O evento reuniu técnicos da pecuária de todos os países da região.
O médico veterinário brasileiro Luciano Roppa, diretor da L.Roppa Consultoria, lembrou que China e Índia, países responsáveis pelas maiores taxas de crescimento populacional, também são os que mais crescem economicamente, cerca de 7% ao ano. As classes sociais ascendentes das duas nações serão as principais responsáveis pelo aumento da demanda de carnes das atuais 284,5 milhões de toneladas para 338,7 milhões de toneladas até 2020.
Apesar disso, por motivos climáticos, de relevo, ou religiosos (no caso da Índia), não há muito espaço para expandir a produção nestes locais. Mesmo assim, na China há a expectativa de aumento da produção de bovinos de 12%. Nos Estados Unidos, o crescimento deve ser de 6,8%. Haverá pequena retração na Europa. E, na América Latina, a produção de bovinos deve crescer 18%.
Todos os números, segundo Roppa, são da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Mas, para aproveitar os bons ventos, a pecuária latino-americana terá de superar vários desafios. O veterinário lembrou que os custos de produção aumentam acima do preço do produto. "Enquanto o preço da carne subiu 85% (de 2000 a 2013) e o do leite, 110%, o dos cereais usados na alimentação animal aumentou 189% ", disse.
Ele destacou que o preço da soja, que vinha a uma média de US$ 250 dólares a tonelada até 2006, saltou para US$ 370 naquele ano. E que, desde o fim de 2009, está a US$ 500 dólares a tonelada. "A tendência, com as safras recordes, é que esse preço diminua, mas ele não voltará aos níveis de 2006", salientou.
Outro fator preocupante, como afirmou Roppa, é que cada vez mais se utiliza os cereais na produção de combustíveis. "Isso é, a produção de etanol e de biodiesel é grande concorrente da produção de alimentos animais", declarou. Por outro lado, ele lembrou que há alternativas de alimentação do gado a serem exploradas. "A capacidade do rúmen (parte do estômago) em utilizar uma grande variedade de alimentos é uma grande vantagem que nós humanos não temos, e deve ser eficientemente explorada", afirmou.
Entre as alternativas, citou resíduos de beneficiamento de milho, farelo de arroz, raiz, raspa ou farelo da mandioca, caroço de algodão, polpa de citrus, bagaço de cana, e resíduo de cervejaria. O veterinário também disse que será necessário investir em mais aditivos para digeribilidade dos alimentos. E em sanidade. "Enfermidades precisam ser erradicadas. Vamos ter de elaborar novos protocolos sanitários", defendeu.
Outro investimento necessário para garantir à América Latina a participação na produção de carne será em pessoal. "Na pecuária, os funcionários respondem por apenas entre 2% e 5% do custo, mas por 100% do sucesso da atividade", declarou. Ele se referiu à melhor remuneração e capacitação.
De acordo com Roppa, não será possível atingir os objetivos sem investimentos pesados em tecnologia. "O aumento da produção terá como base mais produtividade por hectare. Nosso desafio é produzir mais e melhor com menos terra, menos água e com alto custo de alimento", definiu.
* O repórter viajou a Puerto Iguazu a convite da Biogénesis Bagó.

Imagem ilustrativa da imagem América Latina vai abastecer o mundo com carne e leite
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