Ameaça de calote restringe o crédito
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de novembro de 1996
Maria Teresa Martins 
A política agressiva de vendas pelo crediário, que oferece desde televisores e geladeiras a simples liquidificadores com prestações que às vezes não chegam a R$ 5,00 por mês, está produzindo dois fenômenos no comércio: o aumento das vendas para as classes C e D e a explosão da inadimplência. Essa combinação ameaça o Natal e já levou o comércio a adotar regras rígidas para a concessão de crédito, embora os prazos e opções sejam os mais variados possíveis.
Os primeiros vinte dias de novembro, em comparação com o mesmo período do ano passado, mostram um crescimento de 38% na inadimplência na região metropolitana de Curitiba. Ao mesmo tempo, nesse mesmo período houve um aumento de 14% no índice de consultas ao crediário, o que indica novo crescimento nas vendas.
Os números são do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), da Associação Comercial do Paraná. O SCPC trabalha com uma rede de 3,3 mil lojas na Grande Curitiba. No verão, o serviço será estendido para o Litoral e, em 1997, para todo o Paraná.
A inadimplência cresce não somente nas comparações anuais. Em relação aos primeiros vinte dias de outubro, novembro registrou aumento de 16% na inadimplência. No mês de outubro, em relação a setembro, houve um crescimento no índice mensal de 22%, interrompendo a queda verificada nos quatro meses anteriores.
O quadro que se repete em todo o País já produz especulações de que o governo irá, novamente, restrigir o crédito. O deputado federal e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto (PPB-SP) prevê que isso irá acontecer no primeiro trimestre de 1997, depois que o Congresso Nacional votar a emenda da reeleição.
Os dirigentes do comércio se preocupam com os índices de inadimplência porque sabem das intenções do governo. Se houver restrição, o consumidor emergente pode deixar de ir às compras. Não há perspectivas de falta de produtos, garante o diretor da rede de lojas Arapuã, João Alberto Ianhêz.
O coordenador do Conselho de Diretor de Serviços e do SCPC, Luiz Nardelli, afirma que não há uma explosão no consumo. A oferta é maior que a demanda, assegura. O que acontece, segundo Nardelli, é que a demanda por eletrodomésticos foi reprimida por muitos anos e agora tem chances, através do alongamento dos financiamentos, de aquisição dos produtos.
Os números do SCPC revelam ainda que há um esforço do consumidor em sair da lista vermelha do crédito. Na primeira quinzena de novembro do 1995, 7,5 mil registros saíram do SCPC. No mesmo período deste ano, foram 9,6 mil registros, o que mostra um aumento de 28% no índice de clientes que limparam seus nomes no crédito.
Tudo indica que, depois de um período grande de endividamento pós-Real, as pessoas conseguiram pagar suas contas, o que aconteceu entre junho e setembro deste ano. Mas depois, foram novamente às compras, em busca de mais produtos, e voltaram a ficar em dívida no crediário. Há uma tendência de compras em excesso, de dívidas, mas também uma tentativa de quitá-las, segundo apontam os números do SCPC.


