A ameaça que o Brasil fez anteontem de suspender as importações de trigo e petróleo da Argentina surpreendeu os moinhos de trigo, que passaram o dia de ontem em alerta. Os moinhos brasileiros já contrataram a compra de 900 mil toneladas de trigo, mas que ainda não foram embarcadas. Caso o governo brasileiro concretize o embargo, haverá desabastecimento de trigo, segundo o empresário Laurence Pih, proprietário do Moinho Pacífico, de São Paulo.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Moageira de Trigo (Abitrigo), Roland Guth, não acredita que o governo brasileiro vá endurecer com a Argentina até as últimas consequências já que aquele país é o principal fornecedor de trigo do Brasil. Apesar disso, o mercado ficou parado ontem. Os agentes de mercado se retraíram e não foram fechados negócios.
A Argentina responde por mais de 90% das importações brasileiras de trigo. No ano passado, o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas do produto, que equivalem a 80% do consumo nacional. Destes, 7,4 milhões vieram da Argentina.
Guth acredita que o governo brasileiro vai suspender a Tarifa Externa Comum (TEC) de 12,5%, que é a taxa de proteção cobrada sobre o trigo importado de países que não fazem parte do Mercosul, caso resolva romper relações comerciais com a Argentina.
Ele também aposta na retirada da cobrança de 25% sobre o frete do trigo importado dos outros países. ‘‘Se o governo suspender as importações com a Argentina e não retirar a TEC e a sobretaxa do frete, vai haver impacto no preço do pão no Brasil’’, afirmou. Para ele, o governo está correto em adotar medidas severas contra a Argentina, que vem rompendo muitos acordos.
Caso haja o embargo, as indústrias terão que procurar outros fornecedores como Estados Unidos e Canadá. ‘‘O preço do trigo nesses países é parecido com o da Argentina’’, afirmou Guth. Mesmo assim, o empresário Laurence Pih disse que um redirecionamento das importações vai demandar de 30 a 45 dias, período que compreende a contratação , operação, embarque e transporte dos produtos.
Segundo Pih, os moinhos estão desabastecidos em virtude da escalada do dólar. O empresário afirmou que os estoques dão no máximo para três semanas de abastecimento. De acordo ele, a alta do dólar elevou o endividamento dos moinhos, principalmente dos grupos maiores, com acesso a financiamentos. As dívidas com importações são de cerca de US$ 100 milhões por mês.
Já o setor de frango não será afetado por uma possível retaliação contra a Argentina porque as exportações brasileiras para àquele país vêm caindo há dois anos. Em 99, o Brasil exportou 60 mil toneladas para a Argentina. Neste ano, deve exportar 25 mil toneladas.
A empresa londrinense Comaves, que vendia 5 mil toneladas/ano para a Argentina, suspendeu os negócios em 99 e fechou um centro de distribuição em Buenos Aires no ano passado. ‘‘As restrições contra os produtos brasileiros são enormes. Para diminuir a competitividade do nosso frango, o governo argentino cobra uma taxa nas importações de US$ 0,98 o quilo, sendo que poderíamos vender o produto por US$ 0,75 o quilo’’, disse o proprietário da Comaves, Paulo Muniz.

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