Amadorismo no mercado
Em mercado de café sempre há espaço para aumentar a confusão. As perdas causadas pelas geadas - inclusive em Minas Gerais - não foram suficientes para sustentar os preços. Esta semana as bolsas subiram e despencaram com a mesma rapidez, travando o mercado interno, sem referencial em pelo menos três dias. O preço subiu, sem dúvida, mas recuou, mostrando que há muita especulação e nenhuma estabilidade e que o mercado não pode prescindir da estratégia de retenção, aliás compromisso do País com os demais países membros da APPC.
A semana foi confusa. Mas, como se isto não bastasse para deixar o mercado atordoado, tinha que aparecer alguém importante com alguma idéia. Eis que o secretário-executivo da Camex (Câmara de Comércio Exterior), Roberto Gianetti da Fonseca, disse em Londres, sexta-feira à noite, que não será mais necessário realizar o programa de retenção de exportações de café. De acordo com ele, a geada queimou boa parte da safra brasileira e elevou a cotação do produto, o que deve atender à meta fixada no programa de retenção.
Tentando concertar o erro e evitar uma enorme confusão na segundas-feira, o Ministério da Agricultura informou que prevalece a decisão do CDPC (Conselho Deliberativo da Política do Café) de manter o programa de retenção do café.
Não fora isto, o mercado teria tudo para iniciar uma nova semana em polvorosa.
Lembrando: o programa faz parte de acordo internacional da APPC (Associação dos Países Produtores de Café). Os países produtores são obrigados a reter 20% do volume a ser exportado até que o preço do café atinja US$ 0,95 por libra-peso.
O objetivo é diminuir o volume de café negociado no mercado internacional e, assim, forçar uma recuperação do preço do produto. A quebra dos termos do acordo implica sanções ao país produtor, conforme observa matéria da Agência Estado - Ricardo Grinbaum. Mas o maior impacto de uma eventual - e imprudente - quebra do acordo, seria mesmo sobre o mercado.
Nos últimos dias, o preço do café não ultrapassou a marca de US$ 0,65 no mercado internacional. O volume de café retido nos depósitos brasileiros é de 180 mil sacas. Isso garante a exportação de 900 mil sacas. Assessores do Ministério da Agricultura avaliam que falta muito para atingir o valor estipulado no programa. A decisão do CDPC foi tomada na quinta-feira e por unanimidade de votos.
O secretário-executivo da Camex, no entanto, disse que a geada afetou bastante as plantações de café brasileiras. Com isso, segundo ele, a queda na produção deve se confirmar, e o preço ficará acima dos 95 centavos de dólar por libra-peso.
Pelas contas de Gianetti, as exportações de café devem render ao Brasil cerca de US$ 2 bilhões este ano, apesar de uma queda no volume vendido ao exterior. O Brasil venderá menos café, mas isso será compensado por uma recuperação dos preços devido à geada.
Após intenção de Gianetti, qualquer especulação sobre o programa de retenção de café será suficiente para criar impacto sobre o mercado. A segunda-feira deve começar com uma posição firme do governo para evitar boataria.





