Amadeo: 'Nova cultura atenua efeitos do ajuste'
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Agência Folha
O ministro do Trabalho, Edward Amadeo, acha que o
efeito do ajuste econômico sobre o mercado de trabalho no Brasil será apenas moderado em 1999, muito menor do que algumas previsões. O que o leva a esse prognóstico é a reação de empresas e sindicatos às mudanças de conjuntura nos últimos meses. Como exemplo, Amadeo cita o acordo entre Vokswagen e Sindicato dos Metalúrgicos - 26 mil trabalhadores aceitaram a redução da jornada e dos salários de parte dos funcionários e a empresa descartou demissões imediatas. O ministro nota uma mudança de cultura na relação entre patrão e empregado no Brasil, com o objetivo de preservar empregos. Na sexta-feira passada, Amadeo recebeu a reportagem em seu gabinete, em Brasília, para uma conversa de 45 minutos sobre o futuro do mercado de trabalho no País. A seguir, os principais trechos da conversa:
Pergunta - Há muita gente fazendo previsões dramáticas em relação aos índices de desemprego no ano que vem. Qual é a sua reação?
Edward Amadeo - A conjuntura tem mudado com uma rapidez muito grande. Se nós olharmos o que aconteceu do final do ano passado para o início deste, vamos observar que, apesar da crise asiática de outubro de 1997, em março e abril deste ano o mercado de trabalho já estava dando sinais de recuperação, com geração de empregos importante. Mesmo no período de agosto a outubro houve geração de empregos. Há dois meses, no ápice da crise internacional, as perspectivas eram ruins. Mas houve melhoria importante de lá para cá. A aprovação do ajuste fiscal e a concretização da ajuda externa alteram bastante o quadro para 1999.
Pergunta - Como acha que será o nível de desemprego em 1999?
Amadeo - Claro que a elevação da taxa de juros tem impacto negativo sobre o mercado de trabalho. Isso, mais a sazonalidade negativa no início de qualquer ano, fará com que tenhamos um primeiro semestre difícil. Não quero me fixar em números porque a conjuntura muda tão rapidamente que fica difícil fazer prognósticos. Mas a velocidade da queda da taxa de juros será um fator decisivo e, a médio prazo, minha sensação é que, a partir do segundo semestre de 99, haverá uma recuperação da economia com impacto direto sobre o mercado de trabalho.
Pergunta - Há quem diga que há falhas gritantes na metodologia das pesquisas que apuram os índices de desemprego. Por exemplo, que elas só registram o que ocorre em seis áreas metropolitanas e ignoram as flutuações no interior do País. Qual a sua opinião sobre isso?
Amadeo - É verdade que a pesquisa do IBGE se limita a seis regiões metropolitanas e que a do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), mais abrangente, mas anual, mostra deslocamento de empregos industriais das grandes cidades para o interior. Mas o que me interessa mais são fatos, como a recuperação rápida do mercado de trabalho em 1998, assim que a situação macroeconômica se estabilizou.
Pergunta - O sr. acha que a mesma coisa pode acontecer agora?
Amadeo - Há uma diferença muito importante. Na medida em que se tenha uma situação de equilíbrio fiscal, nós estaremos convivendo, em 1999, com uma situação em que se tem estabilidade econômica e equilíbrio fiscal.
Pergunta - O sr. acha que essas previsões de desemprego se assemelham às do tempo da inflação, as chamadas profecias auto-realizáveis, cuja simples enunciação gerava um clima que garantia esses prognósticos?
Amadeo - Acho que não. Acho, inclusive, que as reações que temos observado dos empregadores e dos sindicatos indicam que provavelmente o efeito dessa crise sobre o desemprego será moderado. Nós passamos por um período em que houve, por conta da reestruturação, uma depuração da força de trabalho. As empresas mantêm hoje no seu quadro de funcionários um conjunto de trabalhadores com os quais têm uma relação muito diferente da do passado. Você nota isso com a queda da rotatividade da força de trabalho.
Pergunta - O acordo da Volks é um sintoma dessa nova relação?
Amadeo - As negociações que têm acontecido nos últimos dois meses confirmam isso. Há um esforço muito grande por parte das empresas de preservar esses trabalhadores e por parte dos sindicatos de preservar empregos. Não fosse essa mudança de cultura, o desempenho do emprego seria pior. O acordo da Volks tem grande importância simbólica por resultar da negociação entre uma grande empresa e um dos sindicatos mais importantes do País, que funciona como um farol para as negociações que virão adiante.
Pergunta - Se a metodologia das pesquisas sobre o mercado de trabalho fossem diferentes, o sr. acredita que os índices de desemprego seriam mais baixos?
Amadeo - É difícil dizer. O confronto entre os números do IBGE e os do PNAD mostra que, de fato, entre 1992 e 1996, praticamente todos os empregos industriais destruídos na capital de São Paulo foram recuperados no interior do Estado e que regiões como o Paraná e o Ceará têm criado muitos empregos industriais. Mas eu não me arriscaria a dizer que os índices de desemprego diminuiriam.
Pergunta - As iniciativas de agenciamento de emprego que se realizam em alguns Estados poderão ajudar a se obter um retrato mais realista do mercado de trabalho?
Amadeo - Há setores e regiões do país em que há estagnação enquanto outros se expandem. Numa situação dessas, muitas vezes você tem desemprego por descasamento entre a oferta de vagas e busca de empregos por parte de trabalhadores. A área em que os países ricos mais têm investido em mercado de trabalho é essa área do agenciamento. Nós, no Brasil, demos os primeiros passos inovadores em 1998, com a criação dessas agências de emprego.





