Brasília - A agenda ambiental do novo presidente dos EUA, Joe Biden, deve abrir oportunidades para o setor de etanol no Brasil, que vê a possibilidade de um forte aumento de demanda pelo produto na maior economia global. Biden deve lançar novas metas de redução de CO2 e prometeu rever políticas do ex-presidente Donald Trump na área de energia. Existe ainda a expectativa que o governo dos EUA invista para possibilitar o aumento da mistura de etanol na gasolina.

Imagem ilustrativa da imagem Alvo de Trump, etanol brasileiro vê futuro promissor com Biden
| Foto: Marcos Zanutto - 05-01-2018

"Sabemos que uma redução de emissão de CO2 passa pela modificação do setor de transportes nos EUA", diz André Rocha, presidente do Fórum Nacional Sucroenergético. "Vemos a oportunidade de uma agenda importante do setor de biocombustíveis nos EUA."

Biden tem prometido um agenda ambiciosa nos biocombustíveis e no combate ao aquecimento global. O governo americano deve apresentar numa cúpula em 22 de abril suas novas metas de descarbonização, conhecidas como NDCs (contribuições nacionais determinadas, na sigla em inglês). Para além disso, a administração do democrata já se declarou contrária à concessão de dispensas especiais que refinarias têm recebido para não precisarem misturar biocombustível na gasolina e no diesel.

Essas dispensas foram estimuladas por Trump e influenciam nos baixos índices de mistura que existem nos EUA. O regime está em análise na Justiça do país, mas o fato de o governo ter declarado sua posição é visto como uma vitória para as cadeias do biodiesel e do etanol. Nos EUA, a maioria da gasolina comercializada não excede uma mistura de 10% de etanol. O setor de biocombustíveis pressiona o governo Biden a investir para aumentar a oferta de gasolina com uma proporção de 15% de etanol, o que representaria um boom na procura pelo produto.

O governo Bolsonaro foi avisado por produtores nacionais de que a ampla utilização de uma gasolina com 15% de etanol nos EUA corresponderia a um mercado adicional equivalente à quase totalidade do consumo no Brasil. No país, a mistura obrigatória é de ao menos 25%, e existe há anos um programa de veículos flex.

Embora os EUA sejam o maior produtor do mundo de etanol - fabricado a partir do milho, ao contrário da cana-de-açúcar brasileira- e exista um alto excedente no país, lideranças do setor no Brasil consideram que parte da procura deverá ser suprida pelo mercado internacional.

O Brasil é o segundo maior fabricante de álcool combustível no mundo. Os dois países representam cerca de 80% da produção global. As expectativas não levam em conta apenas um possível aumento de demanda. O etanol de cana-de-açúcar tem uma melhor pontuação do que o de milho em relação à redução de emissões de CO2.

AQUECIMENTO GLOBAL

Evandro Gussi, presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), opina que mais importante do que as perspectivas para o setor nos EUA é o fortalecimento da ideia de que o etanol terá um papel importante na luta contra o aquecimento global. "O etanol está se consolidando como um agente da descarbonização", diz Gussi. Ele lembra que o Reino Unido anunciou a implantação de uma mistura de 10% do etanol na gasolina do país a partir de 2021. Além do mais, a Índia antecipou em cinco anos a sua meta de adicionar 20% de etanol na gasolina. O novo objetivo é alcançar a mistura até 2025.

PERÍODO TRUMP

O otimismo do setor com a mudança de ares nos EUA contrasta com o período Donald Trump. Ao longo de seu mandato, o republicano adotou políticas para impedir o aumento da mistura de biocombustíveis na gasolina. Além do mais, em 2020 seu governo fez forte pressão para o Brasil aumentar suas cotas de importação do etanol americano produzido a partir do milho.

O movimento de Washington enfrentou resistência do setor nacional. Próximo a Trump, o presidente Jair Bolsonaro aceitou elevar as cotas de importação de etanol livre de tarifa. Os acenos incluíram a renovação da cota em setembro de 2020, por apenas três meses, no que foi atendido como uma tentativa de Bolsonaro de beneficiar a campanha pela reeleição de Trump.

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