Rio de Janeiro - A Confederação Nacional da Indústria (CNI) já trabalha na revisão das suas projeções para este ano, em razão das sucessivas altas na taxa Selic. Em reunião de dois dias encerrada na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária do Banco Central aumentou a taxa básica de juros para 19,75% ao ano. Foi a sétima alta consecutiva.
''Isso (aumento dos juros) vai arrefecer o nível de atividade mais cedo ou mais tarde'', diz o coordenador de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco. A taxa de juros real (Selic menos inflação prevista para 12 meses), que já está em 13%, trava o nível de investimentos do País também na avaliação do presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda.
Castelo Branco explica que, na virada do ano, a CNI trabalhava com a expectativa de recuo dos juros a partir de março, o que não ocorreu. ''Já estamos trabalhando nisso (revisão das projeções)'', disse. O economista preferiu não comentar se a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,7% seria revista para baixo, como fez recentemente o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que previa avanço de 3,8% para o PIB, recalibrado na semana passada para 3,5%.
''O objetivo de elevar a taxa de juros é desestimular a demanda. E o empresário pode ver que a demanda não vai mais crescer como ele esperava e não vai ser mais necessário investir'', comentou Castelo Branco. Segundo ele, muitas das decisões de investimento recém-anunciadas foram tomadas com antecedência.
Já o presidente da Sobeet indica que há investimentos em curso porque existem previsões de crescimento da demanda e, provavelmente, a expectativa entre os empresários de que não é possível manter os juros tão altos indefinidamente. Lacerda, resume, contudo, que com este nível de juros a ''economia está andando com o freio de mão puxado''. Para ele, os investimentos estão subavaliados na economia justamente por conta dos juros altos. Ele acha que uma a taxa de investimentos ao redor de 20%, como a estimada por economistas para o Brasil, é baixa e argumenta que o juro real alto é um fator limitador da expansão do investimento e da própria economia. Além disso, prejudica o que chama de ''custo de oportunidade''.
O presidente da Sobeet explica que este ''custo'' reflete a comparação que o empresário faz entre o que teria de retorno investindo na produção e aplicando no mercado financeiro. ''O juro alto é o convite à aplicação financeira e um desestímulo às atividades produtivas'', afirma. Por isso, comenta Lacerda, existe no Brasil a figura do ''ex-presário'', ou seja, o empresário que fecha ou vende seu negócio e passa a viver de rendimento financeiro.
Para 2005, o Ipea projeta um crescimento do investimento de 8% e uma taxa de investimentos perto de 20,5% sobre o PIB. Estas projeções não foram revistas depois da alta de ontem dos juros. Segundo a economista do Ipea Mérida Herasme, o cenário para o ano já leva em consideração a perspectiva do aperto monetário. ''O ideal seriam juros mais baixos. Mas também não adianta juro baixo se não existe confiança no retorno e na economia. O investidor sempre vai olhar o retorno. Tem gente investindo porque acha que vale a pena, mas o ideal seriam juros mais baixos'', afirmou Mérida.
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e equipamentos (Abimaq), Newton de Mello, o que se vê ''é o incentivo à entrada de produtos importados com preços reduzidos, estabelecendo uma concorrência feroz à indústria nacional, gerando demissões, desemprego e fechamento de empresas'', afirmou ele. ''A saída para conter a inflação, no entender do empresário, seria um choque de oferta, e não a contenção da atividade econômica.''

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