Com cerca de um em cada quatro lares brasileiros dependendo do aluguel para morar, qualquer alta no valor da locação ou nas cotas condominiais é suficiente para desequilibrar o orçamento das famílias, elevando o risco de inadimplência e forçando o corte de despesas essenciais para manter as finanças em dia.

O IIL (Índice de Inadimplência Locatícia), calculado pela Superlógica, uma plataforma de soluções tecnológicas e financeiras para os mercados condominial e imobiliário, aponta que a inadimplência de aluguel no Paraná cresceu e atingiu o maior nível dos últimos nove meses, com taxa de 3,11% em agosto, avanço de 0,07 ponto percentual sobre julho.

Embora na comparação com igual período de 2025 o indicador aponte recuo de 0,08 ponto percentual, caindo de 3,19% no ano passado para 3,11% neste ano, o diretor de Negócios para Imobiliárias do Grupo Superlógica, Manoel Gonçalves disse que o resultado preocupa. “A alta da inadimplência de aluguel a um patamar que não era atingido em meses acende um alerta. Inflação e juros seguem como temas principais em 2026, com impacto direto sobre o orçamento das famílias e, por consequência, sobre a capacidade de pagamento dos inquilinos.”

Por regiões, o Nordeste lidera o ranking desde o último mês de fevereiro. Entre julho e agosto, a taxa de inadimplência subiu de 4,88% para 5,07%. Na Região Sul, os imóveis comerciais lideram a inadimplência de aluguel, com taxa de 3,67%, um recuo de 0,04 ponto percentual em relação a julho (3,71%). Mas as casas e os apartamentos também registraram alta de 3,18% em julho para 3,23% em agosto e de 1,99% para 2,05% de um mês para outro, respectivamente.

Em âmbito nacional, os imóveis comerciais de até R$ 1 mil registraram alta de 0,38 ponto percentual em agosto, alcançando 7,65% e mantendo a maior taxa de inadimplência do mercado, bem acima da média nacional. A mesma faixa de preço nos imóveis residenciais também segue liderando a categoria, atingindo 6,13% em agosto, 0,14 ponto percentual acima dos dados do mês anterior.

"Os aluguéis mais baixos, em ambos os tipos de imóveis, acabam sendo impactados pela sensibilidade econômica das micro e pequenas empresas, que enfrentam desafios financeiros nesse início de jornada, e das famílias de menor renda em detrimento ao custo de vida", explicou Gonçalves.

Nas faixas mais altas de aluguel, o comportamento mostrou dinâmicas mistas em agosto. Nos imóveis residenciais, a maior alta ocorreu nas locações acima de R$ 13 mil, cuja taxa subiu 1,12 ponto percentual e chegou a 5,96% frente a 4,84% em julho. Já nos contratos de imóveis comerciais, a mesma faixa destacada recuou 0,05 ponto percentual em relação a julho, fechando em 4,50% em agosto - ainda acima da média nacional. As menores taxas do mês foram registradas nos imóveis residenciais de R$ 3 mil a R$ 5 mil, com 1,64%, e nos comerciais de R$ 2 mil a R$ 3 mil, com 3,48%.

Na análise por tipo de imóvel, os imóveis comerciais continuam com a maior taxa do mercado, subindo de 4,17%, em julho, para 4,22%, em agosto. Nas demais categorias, o índice se manteve estável, passando de 3,29% para 3,30% em casas e de 2,14% para 2,13% nos apartamentos.

Presidente do Sincil (Sindicato dos Corretores de Imóveis de Londrina) e diretor vice-presidente adjunto para assuntos sindicais do Creci-PR, Marco Antonio Bacarin observou que assim como a maior demanda no município é por imóveis comerciais com aluguel entre R$ 1,5 mil e R$ 2,2 mil, a inadimplência nessa faixa de valor também é maior. “Os aluguéis mais baixos, de até R$ 1 mil, R$ 1,2 mil, são para imóveis residenciais.”

A alta no valor dos aluguéis e da inadimplência, disse Bacarin, são os fatores de maior preocupação para o mercado imobiliário. Ele associa o aumento do número de locatários que não conseguem arcar com o compromisso ao aumento da inflação e à perda de poder aquisitivo da população, especialmente nas classes sociais menos favorecidas.

Os juros elevados, um obstáculo aos financiamentos imobiliários, comentou o presidente do Sincil, contribuem para impulsionar o mercado de locação. “Os juros altos de financiamento têm inibido uma grande quantidade de pessoas, principalmente na faixa baixa (de renda), de financiar um imóvel, aumentando a procura e pressionando os preços dos aluguéis.” E a valorização dos preços dos imóveis novos também se reflete nos preços dos imóveis usados.

O economista e professor da Faculdade Anhanguera, Elcio Cordeiro da Silva, destacou que em um cenário de inflação e juros altos, o pagamento dos aluguéis pode ser comprometido, uma vez que, com a alimentação mais cara e com o maior endividamento das famílias, a tendência é sobrar menos dinheiro para cumprir os contratos de locação. “Dependendo da faixa de renda, pode representar mais de 25% da renda das famílias. Essa proporção tende a ser maior entre as famílias de menor renda.”

O fato de a maior taxa de inadimplência ter sido observada na faixa de aluguel de até R$ 1 mil, disse Silva, demonstra a sensibilidade econômica das famílias de menor renda em razão do custo de vida. “Outro ponto que merece destaque é que, para muitas famílias, a despesa com moradia não termina com o aluguel. O condomínio, que funciona como um segundo aluguel, também sofreu reajustes ao longo do período, aumentando ainda mais o custo fixo da moradia.”

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