Alta do preço e falta de gado devem elevar produção
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terça-feira, 08 de março de 2016
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
A notícia de que a JBS, maior processadora de carnes do mundo, concedeu férias coletivas para funcionários em quatro frigoríficos nas regiões Norte e Centro-Oeste, por baixa disponibilidade de matéria-prima, atiça também o pecuarista paranaense. Depois de anos de rentabilidade baixa, a alta do dólar e o salto nas exportações fizeram com que o preço da arroba passasse e se mantivesse acima dos R$ 150 desde o início de fevereiro, o que dá fôlego para os que se mantiveram no mercado no Estado.
Houve alta de 25% na exportação de carne bovina in natura e processada em fevereiro, na comparação com o mesmo mês de 2015. Foram 123,1 mil toneladas, que geraram receita cambial de US$ 477,2 milhões, ou 11% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).
Mesmo assim, a maior processadora do produto no mundo anunciou anteontem que pararia por 20 dias as unidades de Nova Andradina (MS), Alta Floresta e Pedra Preta (MT), Santana do Araguaia (PA), além de um turno de produção de Mozarlândia (GO). A justificativa oficial é que a seca em algumas regiões e o excesso de chuvas em outras prejudicaram a engorda e a entrega de bois. Porém, a parada ocorre em um momento em que o preço da arroba estava alto, fechando na última sexta-feira em R$ 156,76, conforme o o indicador Cepea/Esalq. Coincidência ou não, após a notícia, o preço caiu duas vezes e ficou ontem em R$ 154,46.
Redução
O presidente da comissão técnica de bovinocultura de corte da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Rodolpho Luiz Werneck Botelho, diz que o problema climático realmente prejudicou as pastagens no Pará e em parte do Centro-Oeste. Contudo, ele lembra que existe um problema de redução do número de pecuaristas no Paraná e no Brasil nos últimos dez anos, pela baixa rentabilidade da carne em relação a culturas como a soja. "A pecuária foi empurrada para áreas marginais e perdeu em produtividade também."
Ainda, Botelho conta que a crise econômica faz parte dos produtores segurar a venda de gado. "Temos produtores, assim como empresários, que estão com medo de perder ativos financeiros até que se se resolva essa situação, pelo risco de desvalorização do dinheiro."
Técnico e ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) no Paraná, Eugênio Stefanelo afirma que a explicação para a redução nos rebanhos passa pela crise de 2005 no setor, quando a suspeita de febre aftosa em regiões do País fechou o mercado internacional para os produtores. Desde então, ele conta que o número de cabeças de gado caiu de mais de 10,5 milhões para 9,2 milhões em 2015, número que representa 4,5% das 212 milhões em todo o Brasil. "A pecuária de corte costuma ter um ciclo de oito anos de alta alternado por oito anos de baixa, e esse problema fez com que se reduzisse o tamanho do rebanho em troca da lavoura."
Com a seca nos Estados Unidos e áreas da Europa atingidas por doenças, a carne brasileira voltou a ganhar força no exterior em 2013. "A arroba custava cerca de R$ 100 há três anos, chegou a R$ 140 no ano passado e já está acima de R$ 150", cita Stefanelo. "O pecuarista começou a reter matrizes para ter um rebanho maior, mas o resultado demora e o preço deve ficar em alta por uns sete anos antes de baixar", completa.
Nicho de mercado
Com propriedades menores, mas gado de melhor qualidade, o representante da Faep acredita que os produtores paranaenses devam investir na produtividade e na qualidade, para fugir do quase monopólio do mercado comprador de empresas como a JBS. "Temos de tomar cuidado com os megagrupos. É preciso oferecer carne de qualidade superior, mas sem competir com o gado barato que vem de Rondônia, por exemplo", diz Botelho.
Stefanelo completa que o paranaense precisa buscar uma produtividade de até quatro cabeças por hectare, quando era de apenas uma antes de 2005. Para tanto, sugere também a integração entre pecuária e lavoura. "Não é algo ruim, porque obriga o paranaense a investir em sanidade, em manejo e em raça." (Com Agência Estado)



