Brasília - Sexta-feira, o preço do barril do petróleo ultrapassou os US$ 75, superando as previsões mais alarmistas. Apesar disso, a vida continua normalmente. A inflação mundial não subiu, não há recessão, nem filas em postos de gasolina. O preço real do barril de petróleo já está acima do valor registrado durante a crise de 1973-74 (US$ 42), embora ainda esteja abaixo do valor da crise de 1979 (US$ 60). E ninguém entrou em pânico. O mundo desafia o petróleo caro.
Não por muito tempo. Essa anomalia econômica está prestes a acabar, garantem economistas. Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, sediada em Paris, disse à reportagem que mais alguns meses de petróleo a US$ 70 vão desacelerar a economia de países como Estados Unidos, China e União Européia neste ano.
A alta persistente do petróleo vai se transformar em inflação, o que exigirá elevação dos juros para conter a alta dos preços, levando a uma desaceleração da atividade econômica. Em 2004, o preço médio do petróleo ficou em US$ 45, saltando para US$ 56 em 2005 e US$ 63 neste ano. Este nível, fatalmente trará pressões inflacionárias, dizem economistas.
Mas o País deve escapar deste novo choque. ''Como o Brasil é praticamente auto-suficiente em petróleo, o impacto da alta do petróleo será muito pequeno'', disseram os economistas Nikola Spatafora e Alessandro Rebucci, do Fundo Monetário Internacional (FMI). Eles elaboraram o estudo ''O preço do petróleo e os desequilíbrios globais'', parte do relatório Panorama Econômico Mundial, recém-divulgado pelo Fundo. O efeito direto da alta do petróleo sobre as contas externas do País será mínimo e a inflação também não deve se alterar, dizem os economistas.
Segundo Fábio Silveira, diretor da RC Consultores, a gasolina está com uma defasagem de 10% no preço e o diesel, de 4%. ''Mas, em ano de eleição, o governo obviamente não vai deixar a Petrobrás reajustar a gasolina e o diesel'', diz. ''Os derivados do petróleo, como nafta, resinas plásticas e outros, acompanham os preços internacionais, mas o impacto não será significativo. Trabalhamos com IPCA de 4,7%, acima da meta de 4,5%.''
Mas o Brasil vai sofrer os efeitos indiretos do novo choque. E podem não ser pequenos. Há uma sincronia entre a alta dos preços do petróleo e os juros mundiais, que começam a se elevar. ''A combinação destes dois fatores pode levar a um ponto de inflexão na situação de desequilíbrio da economia mundial'', escreveu em seu relatório semanal Stephen Roach, economista do Morgan Stanley.
Para os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a alta persistente do petróleo agrava os desequilíbrios da economia mundial. Hoje, os EUA acumulam um déficit em conta corrente monumental, de 6,4% do PIB. O país é financiado por países asiáticos (principalmente a China), que têm superávits em conta corrente por causa da grande exportação de produtos para o mundo (e EUA).
A China usa esse dinheiro extra para comprar títulos da dívida dos EUA e financia, assim, as importações dos americanos (de produtos chineses). A mesma dinâmica funciona com os países exportadores de petróleo. Com a alta do preço do barril, têm altos superávits em conta corrente, e reciclam esses petrodólares comprando títulos dos EUA (financiando déficit e importação de petróleo).

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