São Paulo - A explosão do preço do petróleo pode ameaçar o cumprimento da meta de inflação e a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiros deste ano. A cotação do petróleo em Nova York (West Texas Intermediate) atingiu na sexta-feira o nível mais alto dos últimos 21 anos, de US$ 41,38 o barril e, segundo analistas, o preço do combustível não deve cair tão cedo.
Segundo Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, o crescimento da demanda na China e nos Estados Unidos, somado às tensões geopolíticas no Oriente Médio, está levando o mercado à histeria e puxando as cotações para níveis pré-choque. ''Os países emergentes serão os mais afetados, porque o uso de petróleo em relação ao PIB é maior do que nas nações desenvolvidas'', disse Birol à reportagem.
Em estudo que acaba de concluir em parceria com pesquisadores do Fundo Monetário Internacional (FMI), Birol estima que a alta do petróleo vai elevar a inflação brasileira em 2 pontos porcentuais, reduzir o crescimento do PIB em 0,4 pontos porcentuais e reduzir o superávit comercial em 0,4 pontos porcentuais (como proporção do PIB). Mesmo assim, diz Birol, o Brasil será menos prejudicado do que países mais dependentes de importação de petróleo, como a Índia, que pode perder 1 ponto porcentual de seu crescimento.
''Temos uma situação ingrata, porque o quadro é adverso lá fora e aqui dentro: no Brasil, o preço da gasolina está defasado e já teremos reajuste das tarifas de energia e telefonia em junho e julho; no mundo, temos a alta do petróleo e iminente elevação dos juros dos EUA, que pressiona o câmbio'', diz Fábio Silveira, sócio-diretor da MS Consult. Todos esses fatores podem levar a uma aceleração dos preços no Brasil, acredita.
Segundo cálculos, o preço da gasolina estaria defasado em mais de 30%. A Petrobras não reconhece a defasagem, mas admite reajustar os preços se a alta persistir. ''Fatalmente a Petrobras vai ter que reajustar os preços, e pode haver um aumento superior ao previsto'', diz Silveira. Na ata do Copom, a previsão é de um reajuste de 9,5% na gasolina em 2004.
Os efeitos da alta do petróleo na inflação mundial também afetam o Brasil. Em abril, o PPI (o índice de preços ao produtor dos EUA) ficou em 0,7%, alta de 0,2 ponto porcentual em relação a março. Há riscos de a alta do petróleo forçar uma elevação mais rápida dos juros americanos, obrigando o Brasil a endurecer sua política monetária.
''Ainda não sabemos de que forma a alta será repassada pela Petrobras, por isso não dá para estimar o efeito sobre a inflação'', pondera Mário Mesquita, economista-chefe do banco ABN Amro.
Fabiana Fantoni, analista de petróleo da Tendências Consultoria Integrada, tem uma visão mais otimista. Ela prevê um reajuste de 6,5% na gasolina em julho, o que traria um aumento de 0,18 pontos porcentuais no IPCA. Fabiana acha que a alta internacional é transitória. A analista acredita em um aumento da produção dos países da OPEP, além de crescimento da oferta de petróleo da Rússia, que levariam a uma queda nas cotações. Silveira é mais conservador. ''Mesmo se o preço cair, teria de recuar 30%, é muita coisa.
Se os preços continuarem no patamar de US$ 35 o barril até o final do ano, o crescimento do PIB mundial deve ser 0,5 ponto porcentual menor, caindo de 4% para 3,5%.

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