Nas lojas do camelódromo londrinense, lojistas  estimam queda de até 60% nas vendas nos últimos 90 dias
Nas lojas do camelódromo londrinense, lojistas estimam queda de até 60% nas vendas nos últimos 90 dias | Foto: Gustavo Carneiro

A cotação do dólar subiu 8,6% somente no mês passado e começou a pressionar os comerciantes de produtos importados em Londrina. Segundo o BC (Banco Central), a cotação da moeda norte-americana bateu em R$ 4,14 no último dia de agosto e não dá sinais de que descerá do patamar de R$ 4. Para lojistas do Camelódromo de Londrina e de lojas de rua, a solução é buscar fornecedores que tenham estoques com valores mais baixos e reduzir a margem de lucro, para manter o giro de caixa mensal.

A valorização do dólar também levou à redução de 5,3% nos gastos de brasileiros em viagens ao exterior em agosto, ante o mesmo mês do ano passado, conforme o BC. As importações caíram 16,0% no mesmo comparativo.

Nas lojas do camelódromo londrinense, a estimativa de lojistas foi de queda de até 60% nas vendas nos últimos 90 dias. E o consultor econômico da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Marcos Rambalducci, afirma que não há indicativo que o dólar vá se desvalorizar no curto prazo, muito pela guerra comercial entre Estados Unidos e China. “Principalmente pela imprevisibilidade da economia mundial, que faz com que os investidores prefiram tirar dinheiro dos emergentes e levar para investimentos mais sólidos, como o dólar”, cita.

Para o economista, o aumento nos gastos nos últimos meses devido à cotação chega a 15% em uma viagem internacional. “Para o comércio é mais ou menos a mesma proporção e não há condição de repassar isso para os preços, já que o consumidor já está retraído pelo cenário econômico nacional”, diz Rambalducci, que também é professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).

O presidente da organização que administra o Camelódromo de Londrina, Fernando Silva, conta que parte dos lojistas do centro de compras reduziu as margens de lucro “de forma assustadora”. “Sem aumentar o preço já era difícil vender, então imagina se aumentar. Vejo gente repassando produtos caros com lucro mínimo, baixo, mesmo.”

Silva afirma que a parte boa é que, das 353 lojas e 20 pontos de praça de alimentação, somente quatro estão fechadas e uma com inadimplência de condomínio. “Mas isso porque priorizamos um serviço com condomínio mais em conta. Uma loja de quatro metros quadrados no corredor mais barato paga de R$ 140 a 160 por água, luz, segurança, e o aluguel começa em R$ 650”, cita.

Entretanto, é mesmo o consumidor retraído que incomoda Silva, que tem uma loja no local e outra de rua. “A impressão é que o pessoal já gastou as economias que tinha e agora essa crise desembocou de vez no comércio.”

 Marcelo Casagrande trocou as compras no Paraguai por importadores de São Paulo, que trabalham com estoques maiores e  ainda mantêm produtos adquiridos antes da alta
Marcelo Casagrande trocou as compras no Paraguai por importadores de São Paulo, que trabalham com estoques maiores e ainda mantêm produtos adquiridos antes da alta | Foto: Gustavo Carneiro

O proprietário da Tabacaria do Camelódromo, Marcelo Casagrande, que também vende bebidas destiladas e souvenires, conta que não trabalha com estoque por falta de espaço e precisa fazer três encomendas ao mês. “O problema é que, com essa oscilação toda do dólar, tenho de me atualizar toda hora para não correr o risco de vender um produto por R$ 100 e ter de pagar R$ 120 na reposição”, diz.

Na tentativa de evitar a alta de custos, ele disse que trocou as compras no Paraguai por importadores de São Paulo, que trabalham com estoques maiores e que ainda mantêm produtos adquiridos antes da alta. Tanto que diz que os valores, em dólar, caíram no país vizinho. “O preço dos meus produtos não aumentou, mas, mesmo assim, as vendas caíram 60% nos últimos 90 dias”, afirma, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Para o proprietário da Mary Bolsas, Cristian de Abreu e Souza, todos os tipos de comércio sofrem com o dólar em alta. “Até mesmo os produtos que são fabricados no Brasil têm boa parte da matéria-prima vinda da China. Posso dizer que, em 2013, pagava 50% menos pelo mesmo produto”, conta Souza, que tem duas lojas no camelódromo e uma na rua Sergipe.

Além de diminuir a margem de lucro, ele conta que precisou se reinventar. “Tenho estoque, mas cada produto tem uma sazonalidade e preciso de caixa para fazer a compra antes da alta na demanda, ou pago mais caro”, afirma. “O problema é que o cliente sem dinheiro busca preço e esquece a qualidade. Mas, se eu vender algo barato demais e não for razoável, vou perder o cliente, então tenho de buscar novas linhas”, completa Souza.

Imagem ilustrativa da imagem Alta do dólar pressiona venda de importados em Londrina
| Foto: Folha Arte

MOEDA FECHA COM MAIOR VALOR EM 20 DIAS

Indicadores mais fracos que o esperado da economia alemã e da zona do euro desencadearam nesta segunda-feira nova onda de preocupação com a piora da economia mundial. O aumento da aversão ao risco fez investidores deixarem ativos de mercados emergentes, o que contribuiu para novo dia de alta da moeda americana no Brasil. No mercado à vista, o dólar fechou no maior nível em 20 dias, a R$ 4,1714, em alta de 0,43%.

Pela manhã, o Banco Central havia divulgado o seu Boletim Focus, com previsão para a alta da moeda norte-americana de R$ 3,90 para R$ 3,95 neste ano.

Para 2020, o mercado manteve sua projeção de um dólar a R$ 3,90.

VIAGENS

A conta de viagens internacionais voltou a registrar deficit em agosto, informou também o Banco Central. No mês passado, a diferença entre o que os brasileiros gastaram lá fora e o que os estrangeiros desembolsaram no Brasil foi de um saldo negativo de US$ 846 milhões. Em igual mês de 2018, o déficit nessa conta foi de US$ 900 milhões.

O desempenho da conta de viagens internacionais foi determinado por despesas de brasileiros no exterior, que somaram US$ 1,309 bilhão em agosto. Já o gasto dos estrangeiros em passeio pelo Brasil ficou em US$ 464 milhões no mês passado.

No ano até agosto, o saldo líquido da conta de viagens ficou negativo em US$ 7,876 bilhões. Para 2019, o BC estima um déficit de US$ 12,0 bilhões. (Das Agências)

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