Alta do dólar não deve aliviar exportações
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Andréa Bertoldi<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A alta do dólar não deve beneficar os exportadores brasileiros. O economista Luiz Antonio Fayet, consultor de logística da Confederação de Agricultura e Pecuária (CNA) e ex-presidente do Banco do Brasil, prevê queda nos preços de algumas commodities como o minério de ferro e a soja. ''Como o Brasil tem deficiências logísticas terríveis, isso vai inibir o crescimento do setor rural'', disse.
Segundo ele, em 2008, o País poderia produzir de 3 milhões a 5 milhões de toneladas de soja e milho a mais, mas não vai conseguir porque os custos logísticos são proibitivos. A alta do dólar não irá ''refrescar'' o setor porque para quem planta o ciclo é anual e o câmbio varia a cada dia. ''Essa variação do dólar é muito volátil, não dá para confiar nisso. Não dá para acreditar que isso aí vai ficar muito tempo'', afirmou.
Fayet disse que o grande problema é a necessidade de redução de custos para aumentar a competitividade. Para ele, a renda agrícola vai cair porque o preço das commodities terá redução. Os custos internos de logística ainda são altíssimos.
O consultor destacou ainda que o setor de madeira e móveis sofreu redução nas exportações porque perdeu a competitividade para a China.
''Não há analista que diga o que vai acontecer'', brincou. ''A variação dos ativos está em um liquidificador. Ninguém tem um número final do buraco que vai fechar a crise'', afirmou.
Apesar da crise americana, ele acredita que a produção de alimentos e álcool combustível vá sofrer menos do que a de automóveis e televisores porque as primeiras são estratégicas para a subsistência.
Para os cidadãos, ele prevê que a crise trará redução brutal do emprego. Fayet acredita que as famílias de renda menor terão uma crise de liquidez. Ele lembrou que, com o crescimento do crédito consignado, as pessoas se endividaram muito, principalmente, as de renda mais baixa.
''O pessoal de menor renda foi induzido a um endividamento maluco. Nos últimos quatro anos, o endividamento passou de 20% para 40% do PIB (Produto Interno Bruto)'', disse.
O presidente do Sindicato das Indústrias Moveleiras de Arapongas, Valdecir Tudino, disse que as 45 empresas da região tiveram uma queda de aproximadamente 15% nas exportações neste ano com a baixa da cotação da moeda norte-americana. Ele tem opinião contrária a de Fayet e acredita que as empresas comecem a exportar mais com o dólar alto.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Rodrigo da Rocha Loures, ainda é difícil prever qual será o real impacto da crise financeira sobre a economia brasileira. Para ele, uma das consequências mais imediatas é a contração da liquidez, o que tornará o crédito mais caro e seletivo. ''Infelizmente, o Brasil não passará ileso à crise'', afirmou. ''A globalização é um fenômeno inescapável. Não há espaço para se iludir, imaginando que somos uma ilha inatingível''.
Ele acredita que os efeitos do caos financeiro internacional sobre o Brasil podem ser diminuídos com a utilização de alguns dos bons fundamentos econômicos que o País possui, mas alertou que os investimentos devem cair. ''O aumento da capacidade instalada era o sinal mais visível do crescimento recente. Agora, podemos seguir crescendo, mas a taxas bem menores'', avaliou.
De acordo com o presidente da Fiep, a nova conjuntura vai pôr à prova a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) lançada recentemente pelo governo federal.


