Em setembro, como num piscar de olhos, o dólar voltou a se valorizar frente ao real e causar nervosismo em diversos segmentos. Em menos de um mês, a moeda americana valorizou mais de 17% e rompeu a barreira de R$ 1,90 no seu valor comercial e R$ 2 no paralelo. A cotação do dólar comercial chegou a atingir ontem R$ 1,95, subindo quase 5%. Porém, o Banco Central (BC) realizou leilão de venda ontem, a moeda diminuiu o ritmo e fechou em R$ 1,89 (+2,2%).
  Pressão por um possível aumento da inflação, empresas com dívidas em moeda estrangeira prejudicadas e consumidores endividados foram alguns dos temores trazidos com a ascensão abrupta da moeda, o que não acontecia desde a crise global de 2008. Entretanto, especialistas de diversas frentes consultados pela FOLHA não acreditam que todo este nervosismo se manterá por muito tempo no País.
  José Ricardo da Costa e Silva, professor de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), salienta que não há ‘‘um grande contágio’’ da crise financeira internacional em relação a esta elevação. ‘‘Não há nenhum indício no movimento de capitais que sustentam esta situação e que apontem diferenças do cenário de meses anteriores’’. Silva explica que isto não quer dizer que a crise europeia, principalmente na Grécia e Itália, não sejam sérias, mas atenua sua repercussão frente ao boom do dólar no País. ‘‘O que causa a volatilidade é algum ajuste de balança do sistema bancário. Mas não vejo nenhum comportamento dos fluxos de capitais que aponte uma nova tendência’’.
  Outro temor é que a inflação ultrapasse as metas estipuladas pelo governo. Se o dólar continuar forte, existe a possibilidade do IPCA ultrapassar o teto da meta de 6,5% estipulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Preços das commodities, bens comercializáveis e industrializados seriam os primeiros a terem preços alterados caso a moeda persistisse neste patamar. ‘‘A curto prazo os beneficiados são os exportadores de produtos industrializados. Existe um reflexo imediato em alguns setores, os que não têm margem de lucro muito grande. Entretanto, para que isso ocorra, a economia tem que estar bem aquecida, o que não é o caso do Brasil. Os indicadores mostram uma economia forte, mas não tanto assim para uma resposta tão rápida’’.
  É o mesmo caso que acontece com a balança comercial. No caso do Paraná, que está em deficit de US$ 377,9 milhões nos primeiros oito meses de 2011, como mostrado ontem na FOLHA, a elevação do dólar não deve fazer, a curto prazo, com que as exportações aumentem. Maurílio Schimitt, chefe do departamento de economia da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), isso não acontece de forma tão rápida. ‘‘Os contratos geralmente são feitos a longo prazo. Todas as circunstâncias positivas e negativas não se rompem imediatamente. No mercado internacional, o processo de formação de um cliente é demorado. Uma mudança circunstancial não vai fazer que haja uma ruptura imediata de qualquer contrato’’, pondera Schimitt.
Commodities
  Já em relação às commodities, a resposta para o aumento dos preços é mais instantânea. A saca de soja, por exemplo, saltou de
R$ 50,81 no dia primeiro de setembro para R$ 53,53 no dia 21, uma variação de 5,46%. Gilda Bozza, economista Federação da Agricultura do Estado do Paraná
(Faep), observa que a subida do dólar está sendo interessante na medida que dá competitividade aos produtos brasileiros, os tornando mais competitivos no mercado internacional. ‘‘Acontece que no caso do Paraná o grosso da soja já foi exportado. O ideal seria que o dólar comercial ficasse entre R$ 1,75 e R$ 1,80, mas não acredito que isso vá acontecer’’, completa a economista.

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