Alta do dólar leva produtor a antecipar compra de adubo
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sábado, 01 de junho de 2002
Agência Estado 
São Paulo A escalada do dólar, que subiu mais de 8% nos últimos 45 dias em relação ao real e poderá se intensificar nos próximos meses, começa a provocar antecipação de compras de fertilizantes por parte dos agricultores. Como os adubos levam boa parte de insumos importados, produtores optaram por ir logo às compras para não correr o risco de ter de desembolsar mais pelo mesmo produto no segundo semestre, período em que normalmente ocorrem 60% das entregas de fertilizantes do ano.
O impacto desse movimento preventivo para escapar do custo maior pode estar ocorrendo em outros setores da economia e tem reflexos diretos nas importações de produtos intermediários. Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) mostram que as importações de uma cesta produtos químicos representativa para o setor cresceram 17,1% em volume no primeiro quadrimestre ante igual período de 2001. As compras externas foram puxadas, por exemplo, pelos volumes de insumos intermediários para fertilizantes, que aumentaram 23% no período.
Na avaliação do vice-presidente da entidade, Guilherme Duque Estrada de Moraes, parte desse movimento de crescimento das importações pode estar sendo impulsionado pelo temor de aumento de uma variação cambial maior, uma vez que o ritmo de recuperação da atividade econômica ainda é lento para ampliar as compras externas. Ele ilustra esse raciocínio com números recentes do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre. Além disso, de janeiro a abril, a produção da indústria química teve queda de 8,3% na comparação com 2001.
Na Cooperativa Mista do Produtores do Sudoeste Goiano (Comigo), por exemplo, importante pólo produtor de soja, as 115 mil toneladas de adubo para a safra de verão normalmente vendidas entre abril e julho foram neste ano comercializadas em apenas um único mês, em abril. O pessoal está preocupado com a variação do dólar, pois os insumos importados respondem por boa parte do custo total do adubo, afirma o vice-presidente administrativo-financeiro, Aguilar Ferreira Motta. Ele acrescenta que na sua região está havendo antecipação de compra também de defensivos agrícolas, que levam matérias-primas importadas.
A Comigo tem uma misturadora de fertilizante e importa 50 mil toneladas de insumos a cada safra para preparar os adubos. Essas compras são da ordem de US$ 6 milhões. Hoje a cooperativa já pagou pelo menos a metade dessa cifra e, segundo Motta, os negócios estão cobertos do risco cambial tanto para a cooperativa como para o agricultor. É que, ao comprar antecipadamente o fertilizante, o produtor oferece em pagamento a soja que ele ainda vai plantar (soja verde), cotada em dólar. Os insumos para o fertilizante, por sua vez, também acompanham a oscilação do câmbio, mas a cooperativa, responsável pela importação, tem sua receita garantida em dólar pela produção de soja dada em pagamento pelo agricultor.
Houve uma antecipação de compras de adubos no primeiro trimestre. As empresas estão fazendo hedge (proteção) natural, temendo uma alta ainda maior do dólar no segundo semestre por causa do risco eleitoral, afirma o diretor de Relações com Investidores da Adubos Trevo, Ademar Franchetti. A companhia responde por 8% das vendas do setor.


