Alta de preços deve bater inflação em 97
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sexta-feira, 21 de março de 1997
Agência Estado de São Paulo 
Mercado aberto deve compensar aumentos, afirma Homem de Mello Os preços agrícolas devem subir muito mais do que a inflação este ano, prevê o economista especialista em política agrícola, Fernando Homem de Mello, professor da Universidade de São Paulo. O custo de vida deve subir em média 7% a 8% em 1997, enquanto os produtos agrícolas devem ficar entre 15% e 16% mais caros, calcula. Essa alta, no entanto, não deve, na sua opinião, comprometer a estabilidade da economia nem alterar as previsões de inflação baixa para o ano.
Um conjunto de fatores, explica o especialista, vai pressionar o custo não só de arroz e commodities como também de carnes e frutas. A pesquisa semanal de preços agrícolas, elaborada por Mello, mostra que a tendência de queda se inverteu a partir da primeira quinzena de fevereiro. Até janeiro, a média dos preços pagos aos produtores de 11 produtos agrícolas estava em queda. Em fevereiro foi registrada uma alta de 6,85%. Na primeira semana de março, os preços subiram mais 4,81% e na segunda semana do mês mais 4,62%.
O primeiro fator de alta, aponta o especialista, foi a recuperação dos preços da soja e do café no mercado internacional. Em dois meses, o custo do café dobrou. Na primeira semana de janeiro, o produtor havia recebido em média R$ 103,57 pela saca. Na primeira semana de março, recebeu pelo mesmo produto R$ 206,75, segundo Mello. A soja também teve boa recuperação de preço que deverá se refletir no custo das rações e óleo de soja, ressalta.
Chuvas fortes em janeiro e fevereiro são o segundo fator de alta de preços agrícolas, segundo Mello. As chuvas provocaram alta especialmente no custo do feijão, batata e cebola. Choveu com mais intensidade nos períodos de colheita, explica. A saca de 60 kg de feijão, que custava R$ 32,40 na primeira semana de janeiro, já estava sendo vendida a R$ 36,17 na primeira semana de março, compara Mello. O preço da batata também praticamente dobrou nesse período.
Outro fator de alta, segundo Mello, é a provável recuperação do preço da carne ao longo do ano. Nos últimos anos, os preços caíram e a oferta cresceu muito, lembra. O ciclo agora é inverso com a redução na oferta e aumento do preço, acrescenta. Isso é o que mostra a variação dos preços em um ano. A carne bovina este mês está custando 16,57% mais do que em março de 1996. A carne suína teve alta de 35,71% e a de frango 3,45%. Levando em consideração que a inflação média no período foi de 7%, apenas a carne de frango subiu menos do que a inflação, ressalta.
Apesar do aumento da safra de grãos de forma geral, a produção de arroz recuou 5% e a de algodão 15%. Isso, segundo Mello, vai provocar uma recuperação dos preços. Os preços internos desses produtos estão se aliando à oferta, explica. Entressafra de algumas frutas, segundo o especialista, é um quinto fator de alta. Além da laranja, a uva, melancia, tiveram seus preços reajustados acima de 10%, na segunda quadrissemana do mês, segundo a pesquisa do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP.
A alta de preços agrícolas, no entanto, não vai pressionar a inflação, segundo Mello, por causa da abertura de mercado. O que faltar no mercado interno poderá ser compensado com a importação, explica. De qualquer forma, o consumidor perde, porque vai pagar mais, e o produtor ganha com o aumento de rentabilidade, conclui o especialista.


