Alta de insumo ameaça lucro da safra
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de março de 1999
Vânia Casado 
A alta no preço dos insumos agrícolas já está abocanhando boa parte dos ganhos com a safra agrícola. O faturamento bruto com a comercialização da produção sobe com a desvalorização cambial, mas a rentabilidade das principais culturas será menor em relação ao ano passado. Mas quem comprou os insumos antes da liberação do câmbio ou optou pela venda de soja no mercado futuro, com contrato indexado ao dólar, tem motivos para rir à toa.
Um estudo feito pelo Departamento de Economia Rural, da Secretaria da Agricultura, mostra que a receita bruta que poderá ser obtida com a venda da safra de verão 98/99 cresce 12%, em relação à safra anterior. Com base na cotação do dólar em R$ 1,80, o faturamento esperado é de R$ 3,73 bilhões com venda de soja, milho, algodão, feijão, café, enquanto no ano passado, a comercialização totalizou R$ 3,32 bilhões (veja quadro).
Ocorre que a receita extra de R$ 440 milhões não vai garantir um lucro significativo para o produtor, já que os custos de produção subiram em média 15% em fevereiro deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, advertiu o diretor do Deral, Richardson de Souza. Os ítens que mais pesaram foram os fertilizantes, com alta de 20%, agrotóxicos com alta de 43% e tratores e colheitadeiras, que ficaram 5,5% mais caros. Só na cultura de soja no Paraná, que responde por 50% da receita bruta da safra, os custos de produção aumentaram 19% em fevereiro, em relação a dezembro de 1998, no sistema de plantio direto.
Apesar disso, existem os produtores que foram beneficiados duplamente. Primeiro pela alta em reais no preço da commoditie. Depois porque anteciparam a compra dos insumos. Além disso, quem apostou no mercado futuro com contratos indexados ao dólar será mais beneficiado ainda. O presidente da Coopervale (Cooperativa de Palotina) Alfredo Lang disse, na última sexta-feira, que tem produtor em sua região que vendeu a soja entre dezembro e o início de janeiro, antes do ajuste cambial, por US$ 9,50 a US$ 11,00 a saca, para entrega da produção em março. Com isso poderá receber por volta de R$ 20,00 a saca, bem acima da média cotada no Estado de R$ 17,00 a saca. Apesar da euforia, Lang recomenda ao produtor aproveitar o momento favorável para se capitalizar agora e se estruturar para enfrentar a alta de custos da próxima safra.
A engenheira agrônoma do Deral, Vera Zardo, alerta que a rentabilidade do produtor vai cair este ano. No caso da soja, o ganho sobre o custo variável de produção que em fevereiro de 1998 era de 142,67%, já havia caído para 103,68% este ano. Se for considerado o custo total, a rentabilidade baixou de 53% para 36%. No caso do milho, a rentabilidade sobre o custo variável cai de 51,4% para 48,8%. A rentabilidade do feijão cai de 115% para 63%.
A rentabilidade da soja acima de 100% pode parecer alta se comparada com outros setores da economia. Mas no final das contas não deverá sobrar muito para o pequeno e médio produtor, porque o ganho de escala não é grande, esclareceu o técnico do Deral, Otmar Hubner. Para uma propriedade média de 32 hectares e produtividade de 40 sacas, o lucro bruto sobre o custo variável de produção é de 20 sacas por hectare.
Nessas condições, a propriedade lucra 640 sacas que se forem comercializadas pelo preço de sexta-feira no mercado, quando o produtor recebeu, em média, R$ 15,73 a saca, o produtor vai ganhar R$ 10.067,00, que divididos por 12 meses vai resultar em R$ 838,00 mensais. Desse ganho, o produtor ainda terá que tirar o pagamento da mão-de-obra empregada, os investimentos da próxima safra, renovação de máquinas ou peças e ainda o sustento da família.
Hubner não descartou ganhos consideráveis com a soja no Paraná. Mas eles devem ocorrer somente para os grandes produtores, que ganham com a produção em escala. Para comprar um carro médio novo à vista, o produtor de soja terá que ter uma área acima de 100 hectares e ter outros rendimentos, para que os ganhos da propriedade possam ser desembolsados integralmente com o veículo, explicou Hubner.


