Brasília - A dívida líquida do setor público deverá chegar ao final do ano com um valor equivalente a 51,3% do Produto Interno Bruto (PIB), praticamente o mesmo nível registrado no final de 2004 (51,6%). Isso a despeito do aperto fiscal recorde e da ajuda do câmbio. As projeções foram divulgadas ontem pelo Banco Central (BC) e levam em conta a taxa de juros média estimada pelos analistas de mercado em 19,1% no ano, a cotação do dólar a R$ 2,70 no final de dezembro e crescimento de 3,5% da economia.
A elevação da taxa de juros desde setembro pelo BC será o grande empecilho para uma redução no endividamento público, como deseja o governo, jogando por terra a maior parte do ajuste fiscal promovido. A cada 1 ponto de aumento na taxa Selic, a dívida líquida do setor público aumenta cerca de R$ 6,3 bilhões ao longo de 12 meses. Isso porque mais da metade dessa dívida é automaticamente corrigida toda vez que o BC eleva os juros. Com isso, a alta de 2 pontos porcentuais nos juros registrada somente este ano já consome quase 80% do superávit primário recorde do setor público em abril, que chegou a R$ 16,3 bilhões. Desde setembro, os juros subiram 3,75 pontos porcentuais, com um custo de R$ 23,6 bilhões para a dívida nos 12 meses à frente.
No mês passado, a dívida líquida do setor público caiu R$ 7,3 bilhões por conta da valorização de 5% do real frente ao dólar. Isso afetou diretamente a parcela da dívida interna atrelada ao câmbio e também as obrigações externas que foram convertidas para reais. O estoque do endividamento público alcançou R$ 956,677 bilhões, 50,1% do PIB, o menor valor desde abril de 2001, quando essa relação chegou a 49,95%. Como o real continua se apreciando em maio, o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, acredita que será possível encerrar o mês com endividamento público um pouco menor: 49,8% do PIB.
No entanto, como não se esperam valorizações ainda mais acentuadas da moeda doméstica e a alta dos juros começa a ter um peso maior na dívida, a trajetória será de alta até o final do ano. Enquanto a taxa média de juros em 2004 foi de 16,25%, a projetada para este ano está em 19,1%. ''A taxa de juros tem um peso maior do que no passado, mas temos o resultado primário e o câmbio para ajudar a compensar'', argumenta Lopes.

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