São Paulo - Neste ano, pela primeira vez desde 1999, quando houve a mudança no regime cambial, os alimentos subiram mais do que os preços administrados no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e que é usado pelo governo como parâmetro no regime de metas de inflação.
De janeiro a novembro, o IPCA acumulou alta de 10,22%. Nesse mesmo período, os preços administrados, que incluem tarifas de energia elétrica, telecomunicações e combustíveis, subiram 13% e os alimentos, 14,97%. Até setembro, no entanto, os preços administrados ainda eram o grupo que mais pressionava a inflação, com variação acumulada de 7,56%, ante 5,66% dos alimentos.
''A alimentação passou os preços administrados no fim de setembro'', observa o economista do ABN-Amro Asset Management Aquiles Mosca. Com a disparada do dólar, os preços das commodities cotadas no mercado internacional em moeda estrangeira subiram. Além disso, argumenta o economista, a perspectiva de recuperação da atividade econômica no mundo empurrou as cotações dos alimentos para cima.
''Este movimento foi positivo para a balança comercial, já que as commodities respondem por cerca de um terço das vendas externas do País, mas foi bastante prejudicial à inflação'', diz Mosca.
A faixa de renda mais afetada foi a população de menor poder aquisitivo, que gasta cerca de 60% do que recebe com alimentos básicos. O encarecimento dos alimentos básicos fez com que os artigos semiduráveis, como as roupas e os calçados, ficassem mais acessíveis ao bolso do consumidor do que os alimentos.
Uma conta rápida revela que quem leva para casa um quilo de arroz, um de feijão, um de farinha de trigo, um de açúcar, uma lata de óleo de soja e um litro de leite gasta R$ 9,60 e não consegue alimentar uma família por uma semana. Com essa mesma quantia é possível comprar um conjunto de roupa infantil que dura pelo menos seis meses.
''Essa mudança nos preços relativos não significa que o consumidor vai deixar de comer para comprar uma roupa, mas ele vai racionalizar a compra dos produtos que mais subiram, como os alimentos'', observa o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), Heron do Carmo.
Ele ressalta que, com o aumento da inflação, toda a população ficou mais pobre, o que é conhecido como efeito-renda pelos economistas. De toda forma, com a disparada dos preços dos alimentos provocada pelo dólar, ficou relativamente mais ''barato'' para o consumidor levar para casa uma roupa.

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