São Paulo - A alimentação vai continuar pressionando a inflação nos próximos meses e deve dar o tom de uma política monetária mais cautelosa no corte da taxa de juros a partir de setembro, prevêem economistas especializados em índices de preços. No Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho, os alimentos subiram 1,09% e responderam por mais 80% da inflação do mês, que foi de 0,28%.
  ‘‘Não dá mais para contar com a âncora verde’’, afirma o economista chefe da SulAmérica, Newton Rosa, fazendo referência aos preços dos alimentos que tiveram variações negativas por um longo período. A afirmação do especialista tem fundamento. A carne bovina, por exemplo, um item de peso nos índices de inflação, já subiu na virada do mês 8% no atacado, segundo o vice-presidente da Associação Paulista de Supermercados
(Apas), Martinho Paiva Moreira. ‘‘Temos estoques antigos para duas semanas, por isso o repasse ao consumidor será de 4% em julho e o restante em agosto’’, prevê.
  Moreira observa que desde janeiro o preço da carne bovina não tinha subido. O aumento, segundo ele, é resultado da redução da oferta do produto em razão da entressafra. Também o fato de os pecuaristas terem aumentado, no passado recente, o descarte de matrizes por conta dos preços baixos da arroba de boi gordo contribuiu para reduzir ainda mais a oferta atual de carne. Com isso, a entressafra deste ano deverá ter uma oferta de carne bovina mais apertada.
  Também o leite, que tem sido o grande vilão da alta dos alimentos com elevação de 12,4% em junho, não deverá dar trégua para a inflação nos próximos meses. Moreira destaca que, em julho, o preço do produto deve subir cerca de 15% ao consumidor, com perspectivas de alta também nos preços dos derivados, como queijo, iogurte, leite condensado, creme de leite, entre outros. A sinalização dos fabricantes de leite condensado, por exemplo, é de um reajuste de 10% este mês. No caso do creme de leite, a alta prevista é de 20%.
  ‘‘O preço do leite não deve recuar nos próximos 90 dias. No mínimo, a cotação pode ficar estável’’, afirma o diretor executivo da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), Nilson Muniz. A entidade reúne 30 indústrias de leite longa vida que são responsáveis por 80% do abastecimento do mercado nacional.
  Segundo o diretor da ABLV, o preço do leite mudou de patamar a nível mundial porque existe uma escassez de produto no mundo combinada com uma demanda firme. O quadro se agravou no Brasil, segundo Muniz, porque a produção nacional deste ano cresceu muito pouco, menos de 2% na comparação com 2006, para atender o aumento do consumo puxado especialmente pelas famílias de menor renda que estão tendo ganhos salariais. Além da carne e do leite e derivados, Moreira, da Apas, acrescenta a pressão do feijão, que ficou 9,4% mais caro em junho, e as pressões advindas do óleo de soja, de milho e da farinha de trigo. Em seis meses, o preço em dólar da farinha de trigo aumentou cerca de 30%. No mercado doméstico, a elevação foi bem menor, observa. ‘‘O dólar em baixa atenuou o impacto desses aumento nos preços domésticos’’, pondera.

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