Alimentos podem conter Pó da China
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de novembro de 2004
Vânia Casado<br> Equipe da Folha 
Curitiba Alimentos orgânicos ou hortaliças, frutas e outros produtos cultivados com adubos a base de esterco de frango podem conter resíduos de pentaclorofenol, o temido ''Pó da China''. O produto é proibido no Brasil para cultivo de alimentos por ser um organoclorado comprovadamente cancerígeno. E que também pode afetar os sistemas cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, neurológico, endócrino e reprodutivo, além de causar problemas de pele. A contaminação se estenderia também para utensílios de cozinha utilizados no dia-a-dia dos consumidores como palitos de dentes, espetinhos e caixas que acondicionam legumes e verduras.
A denúncia é do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), após receber comprovação do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, de que adubos feitos com esterco de frango, utilizados na agricultura dos Estados do Paraná e Santa Catarina, apresentam resíduos de Pó da China.
Os testes foram feitos a partir de uma denúncia de que a maravalha, que é a madeira ralada que sobra nas serrarias e madeireiras, depois vendida para compor as famosas ''camas de aviário'', estava contaminada com o pentaclorofenol. De acordo com Idec, o Instituto Adolfo Lutz comprovou que a contaminação tem origem no tratamento da madeira, que vem sendo feito de forma inadequada, com produto proibido.
As análises feitas no Instituto Adolfo Lutz confirmaram a presença de pentaclorofenol com valores de 0,04 a 0,27 mg/kg para as amostras de adubo do Paraná e de 0,96 até 1,28 mg/kg para as amostras de Santa Catarina.
A legislação restringe o uso do pentaclorofenol para tratamento de fungos da madeira, apenas quando ela for utilizada para transformação em dormentes, postes e mourões para cercas rurais. O Pó da China não pode ser utilizado em hipótese nenhuma em madeira destinada à transformação de produtos largamente utilizados no dia-a-dia dos consumidores e também para alimentos, explicou Sezifredo Paz, coordenador do Idec.
Em função do uso irregular do agrotóxico, o Idec está pedindo a total proibição desse produto no Brasil, já que esse tipo de contaminação pode prejudicar as exportações da agropecuária brasileira. Isso porque o produto é proibido em muitos países e, no caso de ser utilizado, as exportações precisam ter o consentimento do país que está comprando, informou Paz.
O delegado em exercício do Ministério da Agricultura no Paraná, Clemente Martins, disse que o ministério solicitou a realização dos exames para o Instituto Adolfo Lutz e encaminhou os resultados para o Ministério Público. Segundo Martins, se está aparecendo resíduos de produtos proibidos nas camas de frango, a fiscalização deve ser feita pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Hídricos Renováveis (Ibama).
O Ibama, por sua vez, disse que o Ministério da Agricultura tem que enviar um mapeamento para identificar a origem da maravalha, já que é impossível o órgão fiscalizar todas as serrarias e madeireiras do Estado, disse o chefe da fiscalização do órgão, Helio Sidol.


