A crise financeira nos países do Sudeste Asiático pode piorar a situação dos produtores de algodão no Brasil. Este é o alerta que os produtores pretendem levar amanhã, dia 30, ao governo, durante audiência com o ministro da Fazenda, Pedro Malan. A crise, segundo eles, provocou a desvalorização da moeda no Paquistão, que já exporta para o Brasil, e a vantagem do produto importado tende a aumentar.
Os produtores querem que o governo facilite o custeio da produção, com financiamentos para a compra de sementes, adubos e preparação do cultivo, além de financiar as vendas para as indústrias. Reivindicam também restrições à entrada de algodão importado. A proposta é a de que cada empresa têxtil possa importar no máximo 60% do seu consumo. Hoje algumas importam mais de 90% do consumo.
Este ano o Brasil deve gastar US$ 1 bilhão com a importação de 500 mil toneladas de algodão. O País está entre os maiores importadores, embora há 15 anos tenha ocupado a quarta colocação entre os exportadores do produto, com 100 mil toneladas anuais vendidas no exterior. ‘‘O governo alega que as importações não preocupam, mas no caso do algodão as importações causaram o desemprego 250 mil trabalhadores’’, afirma Hugo Nieri, presidente do Sindicato dos Corretores de Mercadorias Agrícolas no Estado de São Paulo e integrante da Câmara do Algodão da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F).
‘‘Somando o desemprego indireto, são cerca de 750 mil pessoas que perderam o emprego por causa da queda na produção do algodão nos últimos anos’’, afirma Nieri. Segundo ele, não é mera coincidência o fato de que a maior concentração de acampamentos dos sem-terra encontra-se nas antigas regiões produtoras do Paraná e Pontal do Paranapanema, em São Paulo.
O corretor critica a falta de conhecimento das autoridades econômicas em relação à questão agrícola. Ele cita o equívoco do ministro da Agricultura, Arlindo Porto, na recente viagem a Santiago, quando foi anunciada a produção recorde de 800 mil toneladas de algodão. ‘‘Na verdade o Brasil vai produzir 800 mil toneladas de algodão em caroço, mas a safra de algodão sem a semente será de 400 mil toneladas este ano’’, afirma Nieri.
O caroço, usado para fazer óleo ou ração, representa 65% da safra bruta, mas seu preço é de apenas R$ 2,5 a arroba, enquanto a pluma do algodão custa R$ 30 a arroba. ‘‘Houve um pequeno crescimento em relação à safra passada, que foi de 309 mil toneladas, mas o ministro deu uma demonstração de que não sabe a diferença entre uma plantação de eucaliptos e uma de algodão.’’
O grupo de produtores pretende levar números ao ministro Malan para mostrar o que está acontecendo com a cultura do algodão no Brasil. Os dados indicam que o Ceará, por exemplo, deixou de ser produtor, embora tenha hoje várias indústrias têxteis. Só uma das grandes indústrias do Estado consome 10 mil toneladas por mês, mas o Sindicato dos Beneficiadores de Algodão do Ceará não está conseguindo comercializar mil toneladas do produto.
‘‘O preço do algodão nacional é 10% inferior ao do importado, mas os financiamentos nas importações vão de 440 dias a um ano, renovável por mais um’’, afirma Nieri. ‘‘Se nada for feito, este governo vai conseguir erradicar definitivamente a cultura do algodão do Brasil’’, reclama o empresário. ‘‘Não temos quem compre algodão brasileiro hoje, pois além da competição do produto importado enfrentamos uma grave recessão nas vendas do setor têxtil.’’
Nieri lembra que todo país que possui indústria têxtil precisa manter uma produção local estratégica, para evitar dependência excessiva do mercado externo. ‘‘A visão deste governo para o setor agrícola é um verdadeiro desastre’’, afirma.

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