Rio de Janeiro - Você é um aposentado e gostaria de nadar em dinheiro como o Tio Patinhas? Pois cuidado se esse dinheiro vem de um empréstimo descontado em sua folha do INSS. É o que advertem os economistas, entre eles Luis Carlos Ewald, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autor de ''Sobrou dinheiro! Lições de economia doméstica'' (Editora Bertrand). Segundo ele, nem sempre os juros são de 1,7% ou 2% ao mês como anuncia a propaganda feita por artistas na TV. Na boca do cofre, Ewald acompanhou um amigo à Caixa Econômica Federal e comprovou que, incluídas as tarifas, a taxa efetiva não era de 2%, mas de 4% ao mês:
E o que parece fácil pagar agora pode ficar muito difícil daqui a dois ou três anos, segundo Ewald. Mas Dionéia Gomes, 73 anos, nem quer pensar nisso. Ela vai juntar a poupança e o empréstimo descontado da sua aposentadoria de R$ 240 para dar um carro à neta. ''Ela é uma ótima neta e precisa do carro para ir à faculdade. Meu marido odeia empréstimo, mas vai ter que me ajudar. Ela merece!'', diz.
Se Dionéia pode garantir esse investimento-presente, o professor Luis Carlos Ewald dá o sinal verde. Os aposentados que pedem empréstimo para fazer melhorias na casa ou montar um negócio também levam vantagem. Mas para se endividar cada vez mais, num arriscado efeito bola-de-neve, o empréstimo pode ser perigoso. É o caso do aposentado Manoel Ayres Neto, 55 anos, com empréstimos no Banco do Brasil, no Itaú e que acaba de renovar um de R$ 1.500 no BMG, pago em 36 vezes de R$ 114:
Para Manoel Ayres de Alencar Neto, 55 anos, aposentado por invalidez pela Prefeitura desde 1996, a vida do pobre é viver mesmo pendurado em dívidas. Ele disse que construiu sua casa própria de empréstimo em empréstimo em todos os bancos possíveis e agora deve a três: Banco do Brasil, Itaú e BMG. ''Pedi mais R$ 1.500, mas uma parte ficou lá na boca do cofre'', conta Manoel, que sustenta a família com a aposentadoria de R$ 600 - R$ 206 vão paga o pagamento de dois empréstimos - e os bicos nas redes de vôlei de praia no Leblon. ''Minha filha só estuda e minha mulher trabalha, mas quem banca minha casa sou eu.''
Com um filão de 17 milhões de aposentados (25% com menos de 60 anos) e retorno garantido (descontado em folha), os bancos já movimentam R$ 7 bilhões de um potencial estimado em R$ 30 bilhões. Outro risco é que mais de 40% das famílias do País, segundo o IBGE, são sustentadas por estes idosos. O poder de compra desses brasileiros, atolados em dívidas, pode cair drasticamente em três anos. ''Isso é uma bomba-relógio na economia brasileira'', diz Ewald.

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